Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





09 outubro, 2012

Filosofia de banheiro

A gente reclama da vida, a gente tem caixa de leite. A gente morre de saudade, a gente tem celular. A gente diz mas que porcaria de filme, e tinha um livro da faculdade bem ali na mesa. A gente tinha um futuro, mas ele sempre demora tanto pra chegar que

não sobra paciência, não sobra bom senso, não sobra corrigir erro nenhum. A gente faz um reboco mesmo, tudo nessa cidade é na base do reboco. Até o asfalto, até o muro pichado, até a pele maquiada de minha mãe.

Quando eu for pai vou fazer tudo diferente, vou ser o oposto de tudo o que eu fui e vivi. Mas me parece que  se eu conseguir executar esse plano, que não é lá muito original, certamente serei mais um mais do mesmo.

A gente sente tanta dor de cabeça, a gente tem dipirona. A gente não quer nunca mais ver a sua cara, a gente não consegue te excluir do facebook. A gente quer fazer regime, mas o bacon é o bacon. A gente quer ter sabedoria, a gente pira na primeira fase da dor. A gente diz que nunca mais, a gente sente que aguenta mais um pouco. A gente nunca mais vai deixar o quarto virar zona, a gente odeia tirar poeira da estante. A gente tem a gente mesmo, a gente só se sente só.

A gente quer acordar num quarto de hotel em Zurique, com suas paredes estranhas e sua cama com lençol sem estampa, e seu chão com cheiro de desinfetante discreto. A gente quer acordar sem as roupas da gente e sem os familiares da gente, até sem o nosso bafo matutino, sem nada que seja nosso que é pra ver se de repente a gente tem um insight de como sair desse marasmo de merda de contradições. A gente não quer muita coisa, porque já que a vida tende a ser essas coisas todas, pelo o menos uma contradição só a gente tinha que superar, será possível que uma única sequer não conseguimos vencer? A do regime, esqueça. O bacon é o bacon. Celular gasta crédito. Leite, só se tiver nescau. Na faculdade fazemos prova com resumo da apostila. A dor de cabeça é crônica. A gente tem diarista, para o quarto.

A gente tinha... e para tudo o que a gente tinha, a gente tem (seja lá o que for). E acho que por isso nunca saberemos o que é o nada puro. O nada puro nem existe nesse planeta, aqui tudo é matéria.


21 setembro, 2012

A vida vale



o azulejo é muito frio, não gosto de tocar nele com os pés. Os chinelos não encontro, então permaneço na cama por longos minutos, e sem ter coragem de levantar eu penso em todo mundo nos seus mínimos detalhes, e em cada palavra, e penso até no capítulo da novela de ontem, no filme da semana passada, penso nas ruas e nas avenidas e no guarda roupa que terei de abrir para procurar uma roupa e

sair de casa mais uma vez, mas não gosto do ar frio da manhã, então procuro os carros, as pessoas que caminham, a manchete do jornal, o destino do ônibus, um assento no ônibus, o ponto de descer. E desço, mais pesado que ultimamente, com o estômago ainda embrulhado, e me prendo em uma única coisa para não esmorecer - domingo, na praia, somente eu e aquele mar. Penso nisso como o último restinho de oxigênio para

poder enfrentar a rotina, a calamidade, a morte, o choro, aquele grito que não sai da minha cabeça, aquela linda criança que ficou sem pai e eu impotente, e de repente em qualquer lugar me pego chorando de qualquer jeito, me sentindo indigno de sentir um instante de paz, se ao meu redor há tamanha dor e eu não queria, mas eu fico num estado que nem sei. A moral da história é

que eu todo dia me cobro uma melhorazinha de nada em nome de tudo o que fizeram por mim, em nome de tudo o que eu não precisei passar e eu nome de tudo o que eu sofri. Mas deixe eu lhe dizer uma coisa que não fui eu que inventei, mas isso marcou minha vida. Sabe quando abrimos os olhos pela manhã sentindo uma bala de canhão no peito? O nome disso é esperança. É a coisa mais doce e mais amarga que poderia acontecer na face da terra, essa tal esperança. Num piscar de olhos ela cria em si tanto poder e tamanha devassidão que eu suspiro, apenas suspiro, pois

eu sou esperança demais, e portanto erro, falho, agrido, berro e escandalizo, me arrependo, ironizo, choro, me desvalorizo, só porque sei que haverá um depois para tudo. Claro que um dia não haverá depois, e essa é a chamada dor mestra, agonia de todos os povos. Serei muitas outras coisas daqui para frente, e eu me propus a uma doideira que ninguém compreende, afinal não é da conta de ninguém, mas vale a pena tentar. Ainda sinto frio, não gosto do frio. Me faz me sentir só. Voltarei para a cama quentinha, para o meu ninho, enquanto isso o mundo sangra, o mundo sorri, e confunde tudo o que é.

Girley, Eloísa - o céu
Rodrigo, Isabela, Kemilly - amor
Murilinho - deixe logo esse sono e volte pra Aracaju

06 setembro, 2012

Amor


     Acordo pela manhã. Dá para ver uma árvore muito bonita da minha janela, dá para tomar um café quentinho enquanto assisto a tv, dá para tomar um solzinho na piscina, dá para ler aquele livro do Anton Tchekov, mas eu não tenho vontade de nada, eu não penso em mais nada além de correr pro bercinho e ver você respirando, com as bochechinhas tão gordinhas quanto duas maçãs rosadas. Eu olho as suas bonecas que um dia foram minhas, olho as suas roupinhas coloridas, olho a sua fralda cheia de xixi, e eu não canso de agradecer a Deus por esse momento que eu repito todos os dias, ainda mais quando você acorda toda banguela sorridente. Ser sua mãe é a melhor coisa do mundo, e quando você puder ler esse blog um dia, irá encontrar textos de alguém que viveu exageradamente todas as coisas, dizem que os jovens são assim, profundos demais. Porém hoje acredito que tudo foi necessário, cada tapa e cada abraço, e tudo me preparava para que eu valorizasse o que eu tenho hoje: a família que eu sonhei pra mim. Eu sei que irei cometer erros, mas eu queria deixar registrado aqui nesse espaço tão especial toda a minha vontade de acertar. Já houve tempos em que eu levantava da cama pedindo a Deus a hora de dormir de novo. Já houve tempos em que eu quis dormir para nunca mais acordar. Já houve tempos em que a dor doeu tanto que eu pensava que nunca iria conhecer a felicidade. Mas hoje eu a conheço. Posso vê-la perfeitamente na minha frente, agora, enquanto escrevo. Posso vê-la nas madrugadas em que você não quer dormir, na sopa em que você chora pra não comer. Eu vejo a felicidade em todos os lugares. Eu e seu papai queremos construir para você um lar em que você saia de casa e sinta saudade de voltar. Um lugar em que você sinta paz de espírito. Porque sei que você, minha pequena, vai crescer e vai querer ir muito além desse berço e do nosso colinho, entretanto eu me trabalho todos os dias para que sempre que você pensar na sua família, você diga: bons tempos...
     O meu amor por você é tão enorme que apenas Deus pode compreendê-lo.

05 julho, 2012

Para aquela dona a quem eu dominava

Me perdoe. Não por eu ter ido embora, mas por ter ficado tempo demais.

Devia ter me despedido mais cedo, devia ter lhe mentido só um pouquinho, não tanto desse jeito. Mas eu sempre fui assim. Quando a tentação chegava, eu cedia logo antes que ela fosse perdendo a força. Eu me ria por dentro de sua paixão, achava ela tão bibelô, vontade de apertar e colocar no colo e depois guardar numa caixinha para eu mostrar a meus inimigos internos como alguém me queria nesse tamanho e quantidade.

Não era maldade do meu coração, você era um tesouro que eu não sabia para que servia, então eu ficava protegendo debaixo de minha asa até descobrir. O que você passou por mim eu também passei por alguém. Não era maldade do meu coração, eu sabia que você valia, era jóia fina e preciosa, mas era jóia que destoava do meu gosto, de minhas maneiras. Você nunca combinou comigo. Parece que só você não via. Aliás, insistia. Você insistia em tornar tudo degradante, insistia em pensar e sofrer até sangrar bem fundo, você queria gastar o tanto que tivesse de solidão no peito, gritar no maior sufoco da garganta, pra ver se expurgava, pra ver se acabava duma vez. Mas eu prolifero em você, a dor que eu lhe causo só explode a todo instante, sem lhe dar sossego. Vamos ser amigos? Me diga que não. Tenha um mínimo de vergonha, e fique tranquila que a partir de agora eu permito que você me odeie, eu permito que você não me procure e sobretudo eu permito que você procure outra pessoa. Mas não vá pra muito longe, fique debaixo de minha vista. Que se essa pessoa lhe magoar, você corra de volta pra mim. Porque entre essa pessoa e eu, é melhor que eu lhe iluda porque eu já sou de casa.



a Flávia Bin