Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





15 junho, 2009

Canção do amigo

Pegue aquele disco de vinil que ninguém mais usa e encaixe na agulha. Consegue ouvir o som? Eu sou um dos melhores barulhos em sua vida. Pois de mim você não cansa. Porque comigo você balança, e não tem vergonha de dançar. Vem, não precisa de coreografia e nem de ensaio. Essa nossa amizade não perde o gingado. E quando mais preciso você toca em minha cintura, e eu em seu ombro. E então me arrasta pelo salão, pelas alegrias e dores, e eu me deixo conduzir. Vê? Nós dois parecemos um!

Saiba que eu percebo quando sou música e você erra minha letra, e me desafina. Mas eu te entendo porque, na verdade, eu não sou uma música. Sou uma trilha sonora inteira, espontaneamente inacabada... Mas eu faço valer a pena, não faço? Eu ainda te faço vibrar, e minha amizade ainda te surpreende, e você ainda gosta de ouvir minha voz. E nessa voz eu me dei, eu entreguei letra, melodia e partitura. E assim somos amigos porque, enfim, você se entregou ao meu ritmo, e eu ao seu. E a sua música toca bem fundo em mim quando estou triste, e quando penso: Não há ninguém.

Mas há alguém. Alguém que escutou todo o lado A, e delicadamente retirou a agulha, virou o disco e esperou pelo lado B. E não se intimidou com os refrões agressivos, os trechos tristes, as vãs repetições. Apenas me aprendeu, como quem canta para o meu mal espantar. São muitas as músicas que não cansam, que não se esquecem, que não deixam nunca de aquecer o coração. E dessa nossa amizade eu também não me canso, eu também não me esqueço, eu também reconheço o valor dessa canção.

08 junho, 2009

O estranho perfume que me atrai

Tem vezes que é aquela pessoa sentada ao meu lado no ônibus. Ou aquela que está na livraria olhando um livro que também me interessa, mas para não parecer invejoso, passo direto e nem dou atenção ao livro. Às vezes eu não entendo o seu jeito de se vestir, ou o penteado de seu cabelo, ou a razão de me perguntar as horas na fila do banco, mesmo quando estou com cara de poucos amigos.

Tem vezes que é aquela estranha que, enquanto está perto de mim, parece que tem tudo perfeito, e me faz apaixonado nem que seja durante o atravessar de uma rua. Tem vezes que é um estranho que fala alto, de grossos modos. Mas por alguma razão é gentil, e isso me constrange. Ai de mim se soubesse os pensamentos bobos que tive a seu respeito... Então esboço um sorriso, como que pedindo um perdão tácito.

Alguns estranhos são apenas estranhos, sem mais. Sem atração. E preenchem a cena como num filme em que os atores principais falam e falam, enquanto o resto apenas se move para lembrar que tudo prossegue, como sempre. Mas ainda que estejam assim, anônimos, são tão essência como eu. E guardam em si o perfume da vida que acontece fora de minha vida, e guardam em si as minhas possibilidades futuras: pessoas por quem poderei sentir amor, amizade, tristeza, companheirismo. Hoje eu me dei conta que sou uma estranha para o mundo, como todo mundo. Mas gosto de saber que, também eu, sou uma possibilidade para outros... Isso tem um cheiro suave, entende? Um cheiro de esperança diária.

30 maio, 2009

Água sobre mim

Eu não sabia o que escrever... Nesses dias me faltaram palavras para tentar demonstrar, mais uma vez, o quanto cada coisa da vida merece ser pensada. Porque sem o pensamento a terra fica seca. Flores e frutos morrem, espinhos morrem até. Hoje, portanto, eu fiquei seca. Sem a vontade costumeira de significar o que parece insignificante. Sem a emoção latente. Mas eu não sou apenas emoção. Não sou apenas a impulsividade do momento. Eu sou mais como uma artesã, que trabalha em seu ofício no dia bom e no dia mau. Em qualquer tempo, eu me fio na tarefa de tentar desenhar um retrato, qualquer retrato – ainda que meio torto na fisionomia, mas certamente fidelíssimo ao estado d’alma.

Não escrevo por inspiração. Escrevo pela mecânica de mim, e ela me move a isso. As engrenagens não param. Trabalham elas também no dia bom e no dia mau, se existe muito o que dizer ou se não há nada a ser dito, pois não pense que o meu silêncio é puro. Perceba bem, até aquilo que parece tão vazio, na verdade eu vejo cheio. A rua vazia é, para mim, cheia de solidão. O beijo vazio é cheio de mágoa, o prato vazio é cheio de fome. Então se estou vazia de palavras, é porque estou cheia. E por estar assim é que venho e me transbordo. E me esvazio sem medo, esperando que nova água venha e se derrame sobre minha terra seca, para que me ressuscite flores e frutos, espinhos até.

23 maio, 2009

Pão amanhecido

Amo como quem não gosta muito de tomar banho frio de manhã, mas porque tem de ir trabalhar e não há chuveiro elétrico, toma. Amo como quem diz: Senhor, passa de mim este cálice. Mas se ele não passa, bebe. Amo por causa de, e apesar de. Só não me peça para ser fiel.

Porque vejo chegar o dia em que você não mais precisará mentir para mim - eu mesma me enganarei. E direi que compreendi, mesmo sem ter recebido muita explicação. E falarei que me sinto atraída, porque sentirei vergonha de dizer que sou apaixonada. Sei que você me ama enquanto vemos algum filme - porque tenta chorar e não consegue. Quanto a mim, basta uma cena bonita e já tenho brilho nos olhos. Também sei que você me ama quando uso aquele vestido. E quando estou sem vestido nenhum. Mas, sinceramente, nós sabemos que o mérito desse amor não é seu. É quase todo meu. Sabe que te amo, não sabe? De um jeito meio torto, meio infiel, mas amo.

E é assim, e é só assim que prossigo ao seu lado. Como a criança que inventa diálogos com suas bonecas, eu invento minhas palavras. Mas elas não acontecem. Invento suas palavras, mas você não reaje. Então busco seu olhar no olhar de outros homens. E quando estou entre eles me divirto, mas é uma diversão com sabor de pão amanhecido. Não se escandalize... Ser infiel, para mim, já não é nada. De tão acostumada que estou a trair a mim mesma, inclusive. E quem poderia me julgar? Não você. Eu conheço o seu primeiro sonho, e já te vi abandoná-lo em troca de outros mais fáceis. Será que se esqueceu de ser fiel ou será que desistiu? Não te angustia também esse sabor de pão amanhecido na boca? Eu não te esqueci, nem te desisti. Você apenas parece um sonho que faz de tudo para não acontecer.

20 maio, 2009

Você

Quando ninguém te vê, ou quando você é só mais um entre tantos, a andar por uma rua movimentada, o que te faz continuar sendo quem você é? Se nesse momento ninguém está interessado no que você tem a dizer, se ninguém presta atenção nem aos seus sapatos, o que te faz, então, permanecer pensando, e permanecer tentando ser melhor a cada manhã?

Se no silêncio do seu quarto, ou no silêncio de você mesmo em meio a uma multidão, você ainda respira, e ainda seu coração bate, e você ainda ama, e ainda é, e deixa de ser, por que, então, precisa de tanto reconhecimento, de tanta luta, apenas para que o outro saiba aquilo que já existe? Ou será que só existe quando o outro souber?
Se você permanece você, ainda que não seja notado, que força é essa que te faz morrer por um instante, só porque um sopro de silêncio visitou a sua tenda? Ele vem em guerra, para te mostrar que há o momento do riso e o do choro, do barulho e do refletir. Ele vem em paz, para te lembrar que há, sim, o momento em que somos diante dos outros, mas há também o momento em que somos diante de nós mesmos: Você é, independente de.

12 maio, 2009

Não me convide

Rasgarei o seu convite mais dia, menos dia. Não aquele para ir à sua festa de aniversário, ou para ir a um barzinho sexta-feira à noite. Mas sim aquele que me chama para entrar no seu coração. Deste, eu abro mão. Não o quero. Porque um convidado até nos alegra dentro de nossas casas, nos distrai contando as novidades. Mas se os dias vão passando e ele não vai embora, começamos a ficar incomodados. E nos perguntamos o que fazer para não sermos indelicados, quando na verdade a nossa vontade é pedir para que ele vá embora.

Porque dizemos a um convidado: “Sinta-se em casa”. Mas nunca passa pela nossa cabeça dar a ele o direito de abrir nossas gavetas, nossa geladeira, nossas cartinhas escondidas debaixo da cama. Ele pode muito bem ficar sentado na sala de estar – e não passar daí. Para quê toda essa invasão? Convidados educados não fazem perguntas indelicadas. Não questionam a falta de alimento na dispensa. Não reclamam dos hábitos da casa. O convidado é um corpo estranho.

Pois eu não me contento com a sala de estar. E eu quero, sim, fazer perguntas indelicadas se preciso for. E quero passar quantos dias eu quiser, possivelmente todos e para sempre. Então não me convide. Não me trate com protocolos. Não seja um diplomata em minha vida. Baterei na porta. Se abrir, eu entrarei. Mas não posso me limitar a elogiar a decoração, e os lustres, e os móveis.

06 maio, 2009

Manual do solitário convicto

1º) Nunca tente se mostrar superior a um solitário. Com uma só palavra ele pode te fazer se sentir a pessoa mais só no mundo. Não busque argumentos enlatados para convencê-lo a mudar. Ele pode enlatar você. Porque para ser um solitário convicto, não basta ter levado um fora. Não basta ter traumas de infância. Nem crises existenciais. É preciso ser quase um advogado inescrupuloso – defender com toda a categoria algo que lá no fundo nem ele mesmo tem tanta segurança. Mas mesmo assim defende. E a solidão parece um estandarte. Ou mesmo uma bandeira que balança para lá e para cá, dizendo: eu sou independente. Aqui é território meu. Indivisível e soberano.
2º) Nunca tenha pena de um verdadeiro solitário. Nessa sua fraqueza ele pode persuadi-lo de que ser só ainda é o melhor caminho. Se bem que ele não dirá com essas palavras. Porque uma característica forte de um solitário é que ele sempre alega que não pretende nos convencer de nada. Ou nos influenciar em coisa alguma. Mas conquistar um território e não pretender invadir outros é coisa que nem na História da Humanidade eu ouvi dizer. O solitário apenas tem maior sutileza.
3º) A solidão não pode ser regra. Até que existe o tempo de estar só. Mas coisa difícil é saber reconhecer - e dosar - esse momento. Sabe que o remédio pode curar, mas se usado além, vicia, e mata. Não sabe? Assim é a solidão. Um remédio tarja preta. Porque ficar sozinho pode equivaler a respirar um pouco de ar puro de vez em quando. Mas também pode equivaler a ser asfixiado. Um pouco todos os dias. Ah, e quase esqueço: também não se impressione demais com os solitários convictos. A maior convicção que eles têm é de que são capazes de nos convencer da convicção que eles têm. =]
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(Que os solitários perdoem aí a brincadeira. Foi só pra quebrar um pouco a solidão =)

02 maio, 2009

Vá!

Acorde, abra os olhos. Levante-se, e banho! Vista-se, e coma. Saia e caminhe. Vá. Se desde o dia em que nascemos a única coisa que nos resta é ir, então vá! Vá crescendo, aprendendo, existindo. E, se de repente, no meio dessa estrada você ficar, eu entendo a sua dor. Porque ficar é uma coisa antinatural. Então eu sei que a tristeza de quem fica é maior do que a de quem vai. Porque quem vai se esquece contemplando as novas paisagens, e até esquece-se de si mesmo. E quem fica vê sempre as mesmas casas, e árvores, e olhares. E tudo remete a uma lembrança. E nada ajuda a esquecer. Quem vai, conhece novos mundos e ares. Respira coisas diferentes. E as lembranças parecem cartinhas dobradas numa caixinha de chocolate. Bonitas e estocáveis. Guardáveis. Quem fica, fica e vê o outro partir. Quem vai, vai e vê o outro ficar. Mas meu professor de Física dizia: " O movimento é relativo". E isso é verdade.
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Trabalhe, estude. Coma, e respire. Posso dizer que quem fica, não fica somente. E quem vai, pode não ir o tempo todo. Posso até dizer que as dificuldades fazem amadurecer, e que superar as crises nos torna vencedores. Mas acontece que quem fica é mais do que isso. Porque caminhar sozinho por uma rua onde um dia se andou abraçado, ir a um cinema onde um dia já assistiu com alguém ao lado, ouvir uma certa música e saber que, juntos, já a cantaram, é ser mais que vencedor, é mais que amadurecer. É ir. Seguir a vida. Então não me diga que quem fica não vai. Vai até muito mais longe, porque tem que ir em si mesmo, e buscar forças nem sei aonde para continuar indo, e levar o coração pra um lugar protegido, e cuidar dele. E curar suas feridas. Essa é uma das mais longas viagens que se pode fazer: a possibilidade de ir e sonhar uma vez mais, por mais que se tenha os pés ainda tão presos ao chão. E ser livre é assim. Não depender nem do corpo para ser. Para ir.
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13 abril, 2009

Tanta máscara

Ser pessoa já significa ser ator - porque se faz preciso subir num palco diante de olhares, e quanto mais verdadeira é a atuação, mais rendem louvores. Porque quando se fecham as cortinas, novamente se está só. E mesmo nesta solidão, ser pessoa ainda é ser ator. Porque haveremos de representar um outro papel, o de ser humano.

Mas é que tem cenas de risos. E de choro. E de reflexão. E monólogo, e diálogo. Ser exímio ator em todas elas? Não posso. Mundo, não exija de mim a mais perfeita atuação. Platéia, não me leve nem rosas nem vaias. Apenas me assista. E se no fim minhas palavras agradarem, me coloquem aspas em meus dois lados e me levem por aí, e me citem nas rodas de amigos, em seus cadernos e diários, em seus livros. Usem-me como referência bibliográfica.

E se no fim o espetáculo não for assim tão bom como deveria, me deixem em paz para reescrever essa peça, para recomeçar. Eu sempre poderei recomeçar. Talvez não a partir das linhas primeiras, mas de algum momento em que se troca de cenário e de vestes, e as cortinas estão fechadas e não há ninguém observando. No escuro do palco.

Tanta máscara. E assim no espelho se perdeu a face de Clarice. A música de Lennon. A voz de Lutero. A paz de Gandhi. E tantas outras máscaras surgem e desaparecem todos os dias. E de todas elas haveremos de nos esquecer, ou nos lembrar, nesse fluxo e refluxo todo o tempo. Não é que eu desisti da arte... Mas sei que o palco e suas luzes e falas mostram minha vida acontecer demais sem mim. Mais do que deveria. De tão preocupada que fico em lembrar de ser, esqueço de existir. Não é que parei de atuar... Mas é das cadeiras do imenso teatro que eu posso ser mais eu - ali, quietinha e surpresa com esse tão lindo espetáculo que se renova a cada manhã. E me surpreendo com os simples e despretenciosos coadjuvantes que dão tanta vida a essa vida. E não tenho tanta raiva assim dos vilões. E desconfio dos mocinhos.

23 março, 2009

Provoque

A Chapeuzinho Vermelho era uma sonsa. Desobedeceu a mãe ao ir pelo caminho errado, sem contar que percebeu que a sua vovozinha não parecia ser exatamente a sua vovozinha, mas mesmo assim não saiu de lá. Pelo contrário. Ficava perguntando: Vovó... Por que esse nariz tão grande assim? E por aí vai. Num cinismo descarado. E parece que o lobo mau adorou o jogo, porque respondia as perguntas também cinicamente. Ambos numa brincadeirinha nada despretensiosa.

Fazer perguntas é assim. É a arte do descaramento. Às vezes você até sabe a resposta, até tem medo do que pode ouvir, ou até sabe que vai ouvir uma mentira. Ou uma verdade ainda pior que a mentira. Mas mesmo assim você pergunta, provoca. Eu até entendo o lobo mau, sabe? Responder perguntas não é uma coisa fácil. Principalmente quando se está a revelar algo muito íntimo, muito nosso. Ou então quando achamos que nossa resposta não nos fará exatamente compreendidos. Fazer perguntas é como ler um livro mais de uma vez – você não se dá por satisfeito com a primeira impressão de leitura. Então você lê novamente, e novamente, e a cada nova vez, se percebe algo novo, por vezes tão sutil. Se preferirem: nas entrelinhas.

Fazer perguntas é insistir. Mas há também o momento em que somos o lobo mau. Em que somos colocados contra a parede, insistidos, provocados. E, muitas das vezes, temos uma vovozinha dentro da barriga, e tentamos escondê-la. E se nos perguntam pelos olhos, dizemos que é para ver melhor. E se nos perguntam pelas orelhas, dizemos que é para ouvir melhor. Enquanto isso a vovozinha vai ficando, quem sabe provocando tamanha indigestão dentro de nós! Mas me parece que nossa história deveria acabar um pouco diferente. Acho que todos nós sonhamos com um final em que chega o caçador e nos rasga por inteiro, e nos salva da vovozinha sufocada no peito, arracando-a de dentro de nós.
(Feliz aniversário pra mim! ;)

16 março, 2009

Perto dos vinte

Logo, logo completarei vinte anos e o fato de nunca ter conhecido outro lugar tipo Holanda, Marrocos, Uruguay, Japão e mais 24 territórios à sua escolha não é tão frustrante - jamais irei esquecer da emoção de quando descobri o Google Earth. A verdade é que desde pequena eu quis ser escritora, mas meus bons amigos ajuizados me desviaram dessa idéia e salvaram meu provável público. E agora estou eu, praticamente adulta, não-escritora e sobrecarregada pelas expectativas da sociedade. Eu disse "praticamente", porque minha priminha de dois anos ainda balança a cabeça com ar de descrédito quando tento chamar a atenção dela ao imitar com quase plena perfeição um orangotango. Mas não faz mal. Queria que ser adulta fosse como um cartão de crédito. A gente só tiraria do bolso quando fosse necessário. Também queria que ficar adulto fosse inversamente proporcional à chatice. "Relativamente adulta" - era assim que eu queria ser.
Envelhecer é uma coisa meio complicada, às vezes. Principalmente quando todos os mais velhos ao seu redor dizem que você vai morrer de saudade do momento em que está vivendo. Esse fenômeno de reminiscências espaço-temporais é bastante comum por aí afora. Também pode ser chamado vulgarmente de sessão nostalgia. Pois essas sessões vez ou outra me aterrorizam! Principalmente em noite de lua cheia. Parece que as vozes do além dizem: "Ei, você driblou todas as tias, sua própria mãe e conseguiu roubar o doce da geladeira. Mas coma tudo logo, porque daqui a dez minutos eles desaparecerão no ar e você ficará sem os doces para sempre...Muahahahaha"! Bem que você tenta mastigar tudo bem rápido, até quase engasgar. Conclusão: fica aquela sensação de ter uma coisa nas mãos tão única e passageira que não dá nem tempo de aproveitá-la completamente. Pra não ficar com o peso na consciência, vou fazer minha parte para combater esse mal. Portanto prometo, e sem cruzar os dedos, que pelo o menos de agora em diante nunca mais perderei um minuto sequer fazendo barquinhos de papel ou olhando pro teto enquanto filosofo secretamente. Já é um começo. :]

08 março, 2009

Vem Jogar!

Ei, depois que você conseguir, não acabe o jogo – tente fazer um gol mais bonito. Mas eu entendo se depois de muitos gols a vitória te cansar. Então é normal procurar novos desafios fora de campo, que parece de repente apertado e pequeno diante do que queremos. E talvez por isso às vezes a gente toma, de propósito, um cartão vermelho, para ser expulso, para se sentir um pouco livre de todos aqueles olhares voltados para nós no estádio, gritando nosso nome, esperando sempre a melhor atitude da gente. Sempre um gol a mais. Mas tentar driblar todos os adversários cansa. Às vezes eles nos derrubam. Cometem falta. Cometemos falta. Cartão amarelo. Quantas vezes não já o sentimos? Ei, o perigo se aproxima! Mas como ele nos atrai...
Cartão vermelho. Finalmente expulsos e livres. Saímos de campo. Banco de reserva. Nenhum olhar sobre nós. A gente sai do mundo, mas o mundo não sai da gente. Sempre fica um ou outro fotógrafo esperando um deslize. Um ou outro jornalista com a pergunta que não quer calar. Os 45 minutos do segundo tempo é uma contagem regressiva para todos. E quantos gols teremos feito até lá? E quantos passes teremos dado para que outros também tenham a oportunidade de fazer um gol? No fundo a gente ora, implora pelos minutos de acréscimo. Para que nenhum bandeirinha anule nosso gol. Para a tão esperada hora de correr pro abraço. Para que as câmeras registrem para sempre aquela alegria única. Para que nunca haja impedimento. Para que o grande juiz não nos apite. E não sabemos como olhar para o nosso adversário. Como a competição vai além do que deveria! Onde estará nosso espírito esportivo? Saber entender que a mesma torcida que nos aplaude pode nos vaiar. Basta um toque de bola errado. O técnico que está de olhos bem atentos a cada drible, observando nosso desempenho, também atende pelo nome de Consciência.
Sempre haverá o time que ganha e o time que perde. E perder ou ganhar, no fim, é só uma questão de números, porque na verdade o que conta é o direito de jogar. De uma hora ser atacante, mas também ser defesa. Onze pra cada lado. Mas perder dói. Decepcionar é triste. Mas tem torcida que não desiste não. Continua a pedir o autógrafo, a cantar o hino, a vestir a camisa. Essa torcida sim, vale a pena. Vale mais que o jogo. Aliás, é só por causa dela que o jogo existe. É a torcida incondicional. Insistente. Apaixonada por nós. Mas por quê, torcida, deixamos você de lado? Por que é que a gente chora, deitado naquela grama, no meio do estádio, se tudo o que você quer nos dizer é que ainda acredita? Por que o goleiro adversário parece sempre o mais alto? E a bola é sempre tão pesada, tão disputada, tão inacessível? E as traves do outro time são sempre mais grossas. O uniforme parece mais confortável que o nosso. A chuteira deles nem parece apertar o pé. E cobrar pênalti, infelizmente, pode tomar um sabor maldoso, o da vingança. Final do placar, nunca há empate: o jogador ganha ou perde uma coisa mais séria – a vida.
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(Minha homenagem ao Dia Internacional da Mulher, um time mais que especial.)

02 março, 2009

Registro do meu começo

O fim é uma coisa que não entra muito em nossa cabeça, não acham? Não dá pra imaginar algo que acabe e Puf! Desapareça no ar. Sempre tem alguma coisa depois do fim. Depois que acaba uma rua começa outra, depois que acaba um ano, começa outro. Depois que se termina uma relação, sempre fica alguma coisa (nem que seja uma raiva mortal! :]). É só imaginar o universo tendo fim. Dá pra imaginar o que é que vem depois dele? Pois é dessas e outras questões que estou falando: o fim, por si só, não existe muito em nosso dia-a-dia. Nem com a morte (para isso serve a saudade).
Como é que a gente se sente quando uma coisa acaba? Na expectativa. Estamos tão acostumados com o começo de outra rua, de outro ano, que quando uma coisa termina, imediatamente somos transportados a uma certa pergunta: E depois disso, o que vem? Creio que estes instantes sejam um dos momentos sempre muito críticos de nossa existência - o instante do incerto. É como se finalmente fôssemos devendar o que vem depois do universo. Não sabemos o que nos espera.
Mas o fim, o fim MESMO, quase sempre dói, né? É uma sensação estranha... Acho que é assim que os bebês devem se sentir quando saem da barriga da mãe. A tranquilidade deles acaba. Eles nascem e creio que ficam ali, chorando, meio perdidos, sem saber exatamente como será essa nova realidade. Um fim sempre puxa um começo. Não depende de nós. Estamos o tempo inteiro finalizando e começando coisas.
O dia, por exemplo. Começa, termina, começa, termina. Mas é que existem certos finais, certos começos um pouco mais complicados que o dia. Você deve entender o que eu digo. Daí ficamos como os bebês, um tanto quanto incomodados com aquele ar diferente entrando pelos pulmõezinhos. Meu professor de biologia dizia que essa primeira respiração do bebê dói bastante - o ar, para poder entrar, força os canais internos. Finais e começos em nós também podem doer.
Não sei em qual estágio você está agora. Se em um fim, se em um começo, se em um período de tranquilidade entre estes dois, ou se em todos ao mesmo tempo. Saiba que não ficará assim eternamente, porque mesmo as coisas que não estão terminando, estão o tempo todo a se modificar: como a criança que nasce e cresce; como o dia que surge e avança pelas horas; como o universo que se expande. Então enquanto não acaba, ou enquanto não começa, viva o que está acontecendo. Não perca o que está acontecendo. O fim é algo sempre possível. E talvez você não goste do que venha a ser o futuro começo.

27 fevereiro, 2009

O que sei sobre a verdade

Eu desconfio de quem diz: a verdade é isso, a verdade é aquilo, a verdade é... e por aí vai.
Também desconfio de quem diz: a verdade não é nada disso.
Mas eu entendo quem diz: faz tempo que tento não saber o que se passa na cabeça das pessoas - já tem me bastado o olhar delas.
Mas não entendo quem diz: eu não acredito no amor.
Eu sei que é mentira: o amor é cego.
Eu sei que é verdade: para saber se você consegue viver pra sempre com uma pessoa, é só imaginar se você consegue conviver para sempre com as falhas dela.
E a vida é assim: uma página...
E a vida não é assim: só sonho. Só realidade. Só tristeza. Só maldade. Só alegria. Há tempo de guerra e há tempo de paz.
O que eu não quero: sei perfeitamente.
O que eu quero: tudo, exceto as coisas que eu não quero.
Por que eu adoro sorrir: estica as bochechas. A vida fica mais bonita.
Porque eu sou tão chorona: Não ser pela metade. Não guardar coisas boas. Não prender no coração as dores. Então eu choro mesmo.
Quando eu digo "Não": quando eu me dou conta que nem sempre seguir o coração é o caminho mais sensato.
E sobre o fim das pessoas que não tentam: Vontade louca de voltar ao começo.
Pelo que sei: os clichês são chatos. Mas como é difícil alcançá-los...
Pelo que vejo: são tantos os lugares-comuns... que os intelectuais fogem deles...e por tanto fugirem deles...fizeram dessa fuga mais um lugar-comum.
Eu sou: Danielle, uma pessoa.
Eu não sou: uma pessoa, somente.
O que eu sou, além de uma pessoa: Filha, irmã, amiga, aluna, vizinha, pedestre, leitora, cliente, cidadã, motorista, sobrinha, neta, paciente, moradora, um número no IBGE, mamífero, escritora, hóspede, turista, moça, transeunte, eleitora, humana.
E, por causa de tudo, por causa de tanto, por ser tão difícil entender a nós mesmos, falo sobre a verdade: a única coisa que sei sobre ela, é que ela ainda não sabe muito sobre nós.


20 fevereiro, 2009

Três coisas

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A Notícia Eu não queria esquecer a indignação. Mas a notícia que me faz estremecer no jornal de anteontem, hoje não me vem mais à memória, porque sempre existem novas histórias, que me exigem novas indignações. Assim a televisão deságua em minha sala – um rio das tristezas alheias. Da tristeza cosmopolita.

Como não pensar sobre estas notícias de todos os dias? Quantos tem pensando sobre elas? Já sei: não pensamos por causa da Impotência, da Desinformação, da Alienação (palavras tão honestas e clichês, adoradas pela crítica). Mas essa crítica se esquece de uma – da Tristeza, pela realidade. Sim, as pessoas sentem por tudo isso, mas sabem também que, afora a educação, a única oportunidade de alterar alguma coisa é eleger melhores candidatos. Melhores candidatos??? O descrédito, infelizmente, reina neste país. E se somos conhecidos como um povo positivo, de esperanças insistentes, pode acreditar: essa força não está consolidada naqueles lá de Brasília. Está na força do nosso braço; na força do trabalhador comum, da pessoa comum - esta que é vulgarmente chamada de “massa”, que não sai na TV a não ser em caso de tragédia (a personificação da própria Tristeza).
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A Tristeza A tragédia e a tristeza nos envelhecem muito mais que o passar do tempo. Talvez sejam elas o verdadeiro cronômetro. As notícias invadem as nossas casas, as nossas vidas (e o que se pode fazer sobre elas?). Talvez a crítica esteja certa. Mas o que realmente importa ter a razão, quando se está diante da violência, da corrupção, da morte? Tudo o que se pede é paz (mas as mães de Israel não podem ter paz. Nem as mães de filhos traficantes. Nem as mães de filhos em penitenciárias).

Digo que a notícia é o que sabemos todo dia sobre o mundo e sobre nós. Digo que a tristeza é a consciência do que se sente impotente para fazer, e digo que o verdadeiro tempo não é o que existimos, é o que vivemos.
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(Calouros de universidades brasileiras são torturados - por universitários brasileiros. Corrupção no TJ do Maranhão. Um castelo construído no interior de Minas Gerais. Parece que a marola, como Lula definiu a crise, está virando um tsunami. Desemprego. As famílias de Santa Catarina. Na Suíça, Paula Oliveira confessa ter mentido ao se dizer grávida de gêmeas, espancada e retalhada com estilete por neofascistas.)
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O Tempo Uma pergunta: existe notícia velha?
Para quem a vive, digo que não.
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“Quantas semanas tem um dia e quantos anos tem um mês?”(Pablo Neruda)
O tempo, realmente, é relativo.
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12 fevereiro, 2009

Você tem saudade de quê?

...E depois de muitos e muitos dias sem postar aqui, senti saudade do Blog.
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Saudade é quando a gente manda uma coisa sair de nosso coração, mas ela não vai embora: ao invés disso, deita no sofá, liga a televisão e nos pede um cafuné, bem esparramada em nossa vida. Eu sei que daqui a dez anos vou sentir saudade das coisas que estão acontecendo agora. É sempre assim, não é? Tudo o que a gente faz (ou tenta fazer) é para que os outros tenham saudade da gente e nos queiram sempre por perto. Nos querendo sempre por perto, farão de tudo para nos magoar menos, nos decepcionar menos. Às vezes não conseguem, porque são humanos e, portanto, falhos. Assim nos afastamos, até que essas pessoas se acostumem a ter saudade da gente e não lutem mais por nós, e se acomodem, e apenas lembrem com um brilho no olhar os bons momentos que vivemos juntos.
Queria deixar a saudade como algo precioso, só pras pessoas que já partiram. Como é estranho sentir saudade de uma pessoa que está perto da gente (vale na mesma cidade)! Por que eu simplemente não telefono, e digo: "Ei, estou sentindo sua falta! Vamos sair uma tarde dessas para tomar um sorvete e conversarmos?". Ah... mas essas mágoas... mas essas decepções que temos... Elas tentam estragar o plano. Eu já magoei, já decepcionei. E foi tão bom dar um abraço do tamanho do mundo inteiro depois disso! Que coisa sem preço é se sentir perdoado. Saber que aquela pessoa te quer junto apesar de quem você é. Mas que coisa linda que é o perdão! Ele consegue fazer a saudade não ser eterna. Do que é que você tem saudade? Voltar não é regredir.
Que coisa chata que seria o mundo sem a saudade! Como é que a gente iria saber se algo foi realmente bom se não sentíssemos nem um pouquinho a sua falta? Que coisa mais estranha que seria a vida se a gente não sentisse falta das pessoas! Como é que iríamos tentar não decepcioná-las? Se, por acaso, acontecer de você não poder de jeito nenhum voltar e matar a saudade (o que acho muito difícil, só em casos extremos mesmo), não tem problema: vá tratar de construir coisas tão especiais como aquelas :]
Quando eu era criança, eu subia no alto de alguma coisa e me jogava no ar, porque os braços do meu pai estavam abertos pra me segurar. Eu confiava simplesmente, eu sabia que ele estava ali e isso bastava. Eu fazia muitos castelinhos de areia na praia, e enfeitava com tampinhas e canudos. Então uma onda vinha e derrubava tudo. Mas eu nem ligava. Apenas sorria e começava a construir outro castelo, dizendo em voz alta que o faria ainda maior e mais bonito. Confiar e sempre começar de novo. Hoje eu tenho essa saudade: de ser a criança que eu era.

09 janeiro, 2009

De como o Amor pode ser ferida que não dói, mas se sente

Essa semana fui comprar pão de manhã cedinho. A cara inchada, o olho pequenininho, talvez alguma remela sórdida. Na fila do caixa, encontrei um antigo conhecido: Jairo Hernandez. E esta sutil embromação inicial foi só para falar sobre ele. Jairo Hernandez é uma pessoa que não gosta muito de sentar para não abarrotar as pregas sempre perfeitas da calça. E leva um lencinho no bolso, especialmente para abrir maçanetas. Quando quer agredir alguém verbalmente, declara com toda a categoria: "Te peguei na mentira, ó ostra deformada!". Por causa do sobrenome, torce para a Argentina.
Pois, num dia normal, este Jairo Hernandez apaixonou-se. Era uma mocinha da classe média, bonitinha e simpática, totalmente não-descartável. Ele cumpriu o protocolo primorosamente: cortejou-a, declarou-se e partiu para o grand finale de qualquer jogo de conquista - o primeiro beijo. Até aí, tudo adequadamente bem sucedido no projeto de Jairo. Eles eram um casal feliz. Acontece que Jairo era viciado em novelas, e por isso temia vigorosamente pelas intrigas que estariam por vir. As intrigas, lógico, fazem parte do script de qualquer casal feliz que se preze.
Como homem precavido e não-tomador-de-sopa-para-não-sujar-o-bigode, J. Hernandez sabia que devia preparar-se para a guerra que enfrentaria em seu relacionamento: tudo para que, de fato, seu "the end" fosse como nas novelas. E começou a luta contra os vilões, digo, contra as prováveis dificuldades.
Para começar, afastou da amada todos aqueles que poderiam lhe revelar seu passado obscuro: sua mãe, seus amigos, e sua irmãzinha de 8 anos, conhecida por não saber guardar segredo. Ela, portanto, não chegou a conhecer um parente sequer dele. Adicionou-a no MSN, mas para logo em seguida bloqueá-la. Não suportava a idéia de, em algum momento, ficarem sem assunto e, fatidicamente, ele ter que procurar um assunto bobo qualquer para poder retomar a conversa. Por tabela, também não utilizavam telefone.
Quando saíam juntos, a levava sempre aos bares mais vazios, às praias menos movimentadas. Acreditava que prevenir é melhor que remediar, e seu crânio estouraria só de suspeitar que ela achasse algum outro homem bonito e interessante. Lugares desertos eram bem mais seguros. Se iam ao cinema, era pela tarde - o público predominante era de adolescentes.
Se, nas novelas, aparecia alguma decepção amorosa e, em meio às lágrimas, tocava ao fundo aquela música bem linda e triste, ele se sentia extasiado. Então não quis esperar. Colocou logo em um Cd a trilha sonora das músicas mais lindas e tristes, para tocá-las assim que chegasse sua vez de chorar. Mas o tempo passou, passou, e J. Hernandez começou a angustiar-se: as lágrimas não vinham. Nem intrigas, nem nada. O relacionamento, contra todas as expectativas dele, permanecia. Firme e simples.
"- O que é que eu faço agora? Devo me tornar um homem frio, pra ver se ela me trata mal? Pra ver se essas intrigas chegam logo, e nós dois, finalmente, possamos ter o final feliz?" - foram estas as perguntas que Jairo me fez na fila do caixa. Minha vez de ser atendida já se aproximava. Eu nem sabia o que lhe dizer. Estava diante de um homem muito corajoso para enfrentar a dor, mas ainda tão covarde para se entregar, sem reservas, à alegria. De fato, J. Hernandez era uma figura interessantíssima.