Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





09 janeiro, 2009

De como o Amor pode ser ferida que não dói, mas se sente

Essa semana fui comprar pão de manhã cedinho. A cara inchada, o olho pequenininho, talvez alguma remela sórdida. Na fila do caixa, encontrei um antigo conhecido: Jairo Hernandez. E esta sutil embromação inicial foi só para falar sobre ele. Jairo Hernandez é uma pessoa que não gosta muito de sentar para não abarrotar as pregas sempre perfeitas da calça. E leva um lencinho no bolso, especialmente para abrir maçanetas. Quando quer agredir alguém verbalmente, declara com toda a categoria: "Te peguei na mentira, ó ostra deformada!". Por causa do sobrenome, torce para a Argentina.
Pois, num dia normal, este Jairo Hernandez apaixonou-se. Era uma mocinha da classe média, bonitinha e simpática, totalmente não-descartável. Ele cumpriu o protocolo primorosamente: cortejou-a, declarou-se e partiu para o grand finale de qualquer jogo de conquista - o primeiro beijo. Até aí, tudo adequadamente bem sucedido no projeto de Jairo. Eles eram um casal feliz. Acontece que Jairo era viciado em novelas, e por isso temia vigorosamente pelas intrigas que estariam por vir. As intrigas, lógico, fazem parte do script de qualquer casal feliz que se preze.
Como homem precavido e não-tomador-de-sopa-para-não-sujar-o-bigode, J. Hernandez sabia que devia preparar-se para a guerra que enfrentaria em seu relacionamento: tudo para que, de fato, seu "the end" fosse como nas novelas. E começou a luta contra os vilões, digo, contra as prováveis dificuldades.
Para começar, afastou da amada todos aqueles que poderiam lhe revelar seu passado obscuro: sua mãe, seus amigos, e sua irmãzinha de 8 anos, conhecida por não saber guardar segredo. Ela, portanto, não chegou a conhecer um parente sequer dele. Adicionou-a no MSN, mas para logo em seguida bloqueá-la. Não suportava a idéia de, em algum momento, ficarem sem assunto e, fatidicamente, ele ter que procurar um assunto bobo qualquer para poder retomar a conversa. Por tabela, também não utilizavam telefone.
Quando saíam juntos, a levava sempre aos bares mais vazios, às praias menos movimentadas. Acreditava que prevenir é melhor que remediar, e seu crânio estouraria só de suspeitar que ela achasse algum outro homem bonito e interessante. Lugares desertos eram bem mais seguros. Se iam ao cinema, era pela tarde - o público predominante era de adolescentes.
Se, nas novelas, aparecia alguma decepção amorosa e, em meio às lágrimas, tocava ao fundo aquela música bem linda e triste, ele se sentia extasiado. Então não quis esperar. Colocou logo em um Cd a trilha sonora das músicas mais lindas e tristes, para tocá-las assim que chegasse sua vez de chorar. Mas o tempo passou, passou, e J. Hernandez começou a angustiar-se: as lágrimas não vinham. Nem intrigas, nem nada. O relacionamento, contra todas as expectativas dele, permanecia. Firme e simples.
"- O que é que eu faço agora? Devo me tornar um homem frio, pra ver se ela me trata mal? Pra ver se essas intrigas chegam logo, e nós dois, finalmente, possamos ter o final feliz?" - foram estas as perguntas que Jairo me fez na fila do caixa. Minha vez de ser atendida já se aproximava. Eu nem sabia o que lhe dizer. Estava diante de um homem muito corajoso para enfrentar a dor, mas ainda tão covarde para se entregar, sem reservas, à alegria. De fato, J. Hernandez era uma figura interessantíssima.