Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





23 março, 2009

Provoque

A Chapeuzinho Vermelho era uma sonsa. Desobedeceu a mãe ao ir pelo caminho errado, sem contar que percebeu que a sua vovozinha não parecia ser exatamente a sua vovozinha, mas mesmo assim não saiu de lá. Pelo contrário. Ficava perguntando: Vovó... Por que esse nariz tão grande assim? E por aí vai. Num cinismo descarado. E parece que o lobo mau adorou o jogo, porque respondia as perguntas também cinicamente. Ambos numa brincadeirinha nada despretensiosa.

Fazer perguntas é assim. É a arte do descaramento. Às vezes você até sabe a resposta, até tem medo do que pode ouvir, ou até sabe que vai ouvir uma mentira. Ou uma verdade ainda pior que a mentira. Mas mesmo assim você pergunta, provoca. Eu até entendo o lobo mau, sabe? Responder perguntas não é uma coisa fácil. Principalmente quando se está a revelar algo muito íntimo, muito nosso. Ou então quando achamos que nossa resposta não nos fará exatamente compreendidos. Fazer perguntas é como ler um livro mais de uma vez – você não se dá por satisfeito com a primeira impressão de leitura. Então você lê novamente, e novamente, e a cada nova vez, se percebe algo novo, por vezes tão sutil. Se preferirem: nas entrelinhas.

Fazer perguntas é insistir. Mas há também o momento em que somos o lobo mau. Em que somos colocados contra a parede, insistidos, provocados. E, muitas das vezes, temos uma vovozinha dentro da barriga, e tentamos escondê-la. E se nos perguntam pelos olhos, dizemos que é para ver melhor. E se nos perguntam pelas orelhas, dizemos que é para ouvir melhor. Enquanto isso a vovozinha vai ficando, quem sabe provocando tamanha indigestão dentro de nós! Mas me parece que nossa história deveria acabar um pouco diferente. Acho que todos nós sonhamos com um final em que chega o caçador e nos rasga por inteiro, e nos salva da vovozinha sufocada no peito, arracando-a de dentro de nós.
(Feliz aniversário pra mim! ;)

16 março, 2009

Perto dos vinte

Logo, logo completarei vinte anos e o fato de nunca ter conhecido outro lugar tipo Holanda, Marrocos, Uruguay, Japão e mais 24 territórios à sua escolha não é tão frustrante - jamais irei esquecer da emoção de quando descobri o Google Earth. A verdade é que desde pequena eu quis ser escritora, mas meus bons amigos ajuizados me desviaram dessa idéia e salvaram meu provável público. E agora estou eu, praticamente adulta, não-escritora e sobrecarregada pelas expectativas da sociedade. Eu disse "praticamente", porque minha priminha de dois anos ainda balança a cabeça com ar de descrédito quando tento chamar a atenção dela ao imitar com quase plena perfeição um orangotango. Mas não faz mal. Queria que ser adulta fosse como um cartão de crédito. A gente só tiraria do bolso quando fosse necessário. Também queria que ficar adulto fosse inversamente proporcional à chatice. "Relativamente adulta" - era assim que eu queria ser.
Envelhecer é uma coisa meio complicada, às vezes. Principalmente quando todos os mais velhos ao seu redor dizem que você vai morrer de saudade do momento em que está vivendo. Esse fenômeno de reminiscências espaço-temporais é bastante comum por aí afora. Também pode ser chamado vulgarmente de sessão nostalgia. Pois essas sessões vez ou outra me aterrorizam! Principalmente em noite de lua cheia. Parece que as vozes do além dizem: "Ei, você driblou todas as tias, sua própria mãe e conseguiu roubar o doce da geladeira. Mas coma tudo logo, porque daqui a dez minutos eles desaparecerão no ar e você ficará sem os doces para sempre...Muahahahaha"! Bem que você tenta mastigar tudo bem rápido, até quase engasgar. Conclusão: fica aquela sensação de ter uma coisa nas mãos tão única e passageira que não dá nem tempo de aproveitá-la completamente. Pra não ficar com o peso na consciência, vou fazer minha parte para combater esse mal. Portanto prometo, e sem cruzar os dedos, que pelo o menos de agora em diante nunca mais perderei um minuto sequer fazendo barquinhos de papel ou olhando pro teto enquanto filosofo secretamente. Já é um começo. :]

08 março, 2009

Vem Jogar!

Ei, depois que você conseguir, não acabe o jogo – tente fazer um gol mais bonito. Mas eu entendo se depois de muitos gols a vitória te cansar. Então é normal procurar novos desafios fora de campo, que parece de repente apertado e pequeno diante do que queremos. E talvez por isso às vezes a gente toma, de propósito, um cartão vermelho, para ser expulso, para se sentir um pouco livre de todos aqueles olhares voltados para nós no estádio, gritando nosso nome, esperando sempre a melhor atitude da gente. Sempre um gol a mais. Mas tentar driblar todos os adversários cansa. Às vezes eles nos derrubam. Cometem falta. Cometemos falta. Cartão amarelo. Quantas vezes não já o sentimos? Ei, o perigo se aproxima! Mas como ele nos atrai...
Cartão vermelho. Finalmente expulsos e livres. Saímos de campo. Banco de reserva. Nenhum olhar sobre nós. A gente sai do mundo, mas o mundo não sai da gente. Sempre fica um ou outro fotógrafo esperando um deslize. Um ou outro jornalista com a pergunta que não quer calar. Os 45 minutos do segundo tempo é uma contagem regressiva para todos. E quantos gols teremos feito até lá? E quantos passes teremos dado para que outros também tenham a oportunidade de fazer um gol? No fundo a gente ora, implora pelos minutos de acréscimo. Para que nenhum bandeirinha anule nosso gol. Para a tão esperada hora de correr pro abraço. Para que as câmeras registrem para sempre aquela alegria única. Para que nunca haja impedimento. Para que o grande juiz não nos apite. E não sabemos como olhar para o nosso adversário. Como a competição vai além do que deveria! Onde estará nosso espírito esportivo? Saber entender que a mesma torcida que nos aplaude pode nos vaiar. Basta um toque de bola errado. O técnico que está de olhos bem atentos a cada drible, observando nosso desempenho, também atende pelo nome de Consciência.
Sempre haverá o time que ganha e o time que perde. E perder ou ganhar, no fim, é só uma questão de números, porque na verdade o que conta é o direito de jogar. De uma hora ser atacante, mas também ser defesa. Onze pra cada lado. Mas perder dói. Decepcionar é triste. Mas tem torcida que não desiste não. Continua a pedir o autógrafo, a cantar o hino, a vestir a camisa. Essa torcida sim, vale a pena. Vale mais que o jogo. Aliás, é só por causa dela que o jogo existe. É a torcida incondicional. Insistente. Apaixonada por nós. Mas por quê, torcida, deixamos você de lado? Por que é que a gente chora, deitado naquela grama, no meio do estádio, se tudo o que você quer nos dizer é que ainda acredita? Por que o goleiro adversário parece sempre o mais alto? E a bola é sempre tão pesada, tão disputada, tão inacessível? E as traves do outro time são sempre mais grossas. O uniforme parece mais confortável que o nosso. A chuteira deles nem parece apertar o pé. E cobrar pênalti, infelizmente, pode tomar um sabor maldoso, o da vingança. Final do placar, nunca há empate: o jogador ganha ou perde uma coisa mais séria – a vida.
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(Minha homenagem ao Dia Internacional da Mulher, um time mais que especial.)

02 março, 2009

Registro do meu começo

O fim é uma coisa que não entra muito em nossa cabeça, não acham? Não dá pra imaginar algo que acabe e Puf! Desapareça no ar. Sempre tem alguma coisa depois do fim. Depois que acaba uma rua começa outra, depois que acaba um ano, começa outro. Depois que se termina uma relação, sempre fica alguma coisa (nem que seja uma raiva mortal! :]). É só imaginar o universo tendo fim. Dá pra imaginar o que é que vem depois dele? Pois é dessas e outras questões que estou falando: o fim, por si só, não existe muito em nosso dia-a-dia. Nem com a morte (para isso serve a saudade).
Como é que a gente se sente quando uma coisa acaba? Na expectativa. Estamos tão acostumados com o começo de outra rua, de outro ano, que quando uma coisa termina, imediatamente somos transportados a uma certa pergunta: E depois disso, o que vem? Creio que estes instantes sejam um dos momentos sempre muito críticos de nossa existência - o instante do incerto. É como se finalmente fôssemos devendar o que vem depois do universo. Não sabemos o que nos espera.
Mas o fim, o fim MESMO, quase sempre dói, né? É uma sensação estranha... Acho que é assim que os bebês devem se sentir quando saem da barriga da mãe. A tranquilidade deles acaba. Eles nascem e creio que ficam ali, chorando, meio perdidos, sem saber exatamente como será essa nova realidade. Um fim sempre puxa um começo. Não depende de nós. Estamos o tempo inteiro finalizando e começando coisas.
O dia, por exemplo. Começa, termina, começa, termina. Mas é que existem certos finais, certos começos um pouco mais complicados que o dia. Você deve entender o que eu digo. Daí ficamos como os bebês, um tanto quanto incomodados com aquele ar diferente entrando pelos pulmõezinhos. Meu professor de biologia dizia que essa primeira respiração do bebê dói bastante - o ar, para poder entrar, força os canais internos. Finais e começos em nós também podem doer.
Não sei em qual estágio você está agora. Se em um fim, se em um começo, se em um período de tranquilidade entre estes dois, ou se em todos ao mesmo tempo. Saiba que não ficará assim eternamente, porque mesmo as coisas que não estão terminando, estão o tempo todo a se modificar: como a criança que nasce e cresce; como o dia que surge e avança pelas horas; como o universo que se expande. Então enquanto não acaba, ou enquanto não começa, viva o que está acontecendo. Não perca o que está acontecendo. O fim é algo sempre possível. E talvez você não goste do que venha a ser o futuro começo.