Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





30 maio, 2009

Água sobre mim

Eu não sabia o que escrever... Nesses dias me faltaram palavras para tentar demonstrar, mais uma vez, o quanto cada coisa da vida merece ser pensada. Porque sem o pensamento a terra fica seca. Flores e frutos morrem, espinhos morrem até. Hoje, portanto, eu fiquei seca. Sem a vontade costumeira de significar o que parece insignificante. Sem a emoção latente. Mas eu não sou apenas emoção. Não sou apenas a impulsividade do momento. Eu sou mais como uma artesã, que trabalha em seu ofício no dia bom e no dia mau. Em qualquer tempo, eu me fio na tarefa de tentar desenhar um retrato, qualquer retrato – ainda que meio torto na fisionomia, mas certamente fidelíssimo ao estado d’alma.

Não escrevo por inspiração. Escrevo pela mecânica de mim, e ela me move a isso. As engrenagens não param. Trabalham elas também no dia bom e no dia mau, se existe muito o que dizer ou se não há nada a ser dito, pois não pense que o meu silêncio é puro. Perceba bem, até aquilo que parece tão vazio, na verdade eu vejo cheio. A rua vazia é, para mim, cheia de solidão. O beijo vazio é cheio de mágoa, o prato vazio é cheio de fome. Então se estou vazia de palavras, é porque estou cheia. E por estar assim é que venho e me transbordo. E me esvazio sem medo, esperando que nova água venha e se derrame sobre minha terra seca, para que me ressuscite flores e frutos, espinhos até.

23 maio, 2009

Pão amanhecido

Amo como quem não gosta muito de tomar banho frio de manhã, mas porque tem de ir trabalhar e não há chuveiro elétrico, toma. Amo como quem diz: Senhor, passa de mim este cálice. Mas se ele não passa, bebe. Amo por causa de, e apesar de. Só não me peça para ser fiel.

Porque vejo chegar o dia em que você não mais precisará mentir para mim - eu mesma me enganarei. E direi que compreendi, mesmo sem ter recebido muita explicação. E falarei que me sinto atraída, porque sentirei vergonha de dizer que sou apaixonada. Sei que você me ama enquanto vemos algum filme - porque tenta chorar e não consegue. Quanto a mim, basta uma cena bonita e já tenho brilho nos olhos. Também sei que você me ama quando uso aquele vestido. E quando estou sem vestido nenhum. Mas, sinceramente, nós sabemos que o mérito desse amor não é seu. É quase todo meu. Sabe que te amo, não sabe? De um jeito meio torto, meio infiel, mas amo.

E é assim, e é só assim que prossigo ao seu lado. Como a criança que inventa diálogos com suas bonecas, eu invento minhas palavras. Mas elas não acontecem. Invento suas palavras, mas você não reaje. Então busco seu olhar no olhar de outros homens. E quando estou entre eles me divirto, mas é uma diversão com sabor de pão amanhecido. Não se escandalize... Ser infiel, para mim, já não é nada. De tão acostumada que estou a trair a mim mesma, inclusive. E quem poderia me julgar? Não você. Eu conheço o seu primeiro sonho, e já te vi abandoná-lo em troca de outros mais fáceis. Será que se esqueceu de ser fiel ou será que desistiu? Não te angustia também esse sabor de pão amanhecido na boca? Eu não te esqueci, nem te desisti. Você apenas parece um sonho que faz de tudo para não acontecer.

20 maio, 2009

Você

Quando ninguém te vê, ou quando você é só mais um entre tantos, a andar por uma rua movimentada, o que te faz continuar sendo quem você é? Se nesse momento ninguém está interessado no que você tem a dizer, se ninguém presta atenção nem aos seus sapatos, o que te faz, então, permanecer pensando, e permanecer tentando ser melhor a cada manhã?

Se no silêncio do seu quarto, ou no silêncio de você mesmo em meio a uma multidão, você ainda respira, e ainda seu coração bate, e você ainda ama, e ainda é, e deixa de ser, por que, então, precisa de tanto reconhecimento, de tanta luta, apenas para que o outro saiba aquilo que já existe? Ou será que só existe quando o outro souber?
Se você permanece você, ainda que não seja notado, que força é essa que te faz morrer por um instante, só porque um sopro de silêncio visitou a sua tenda? Ele vem em guerra, para te mostrar que há o momento do riso e o do choro, do barulho e do refletir. Ele vem em paz, para te lembrar que há, sim, o momento em que somos diante dos outros, mas há também o momento em que somos diante de nós mesmos: Você é, independente de.

12 maio, 2009

Não me convide

Rasgarei o seu convite mais dia, menos dia. Não aquele para ir à sua festa de aniversário, ou para ir a um barzinho sexta-feira à noite. Mas sim aquele que me chama para entrar no seu coração. Deste, eu abro mão. Não o quero. Porque um convidado até nos alegra dentro de nossas casas, nos distrai contando as novidades. Mas se os dias vão passando e ele não vai embora, começamos a ficar incomodados. E nos perguntamos o que fazer para não sermos indelicados, quando na verdade a nossa vontade é pedir para que ele vá embora.

Porque dizemos a um convidado: “Sinta-se em casa”. Mas nunca passa pela nossa cabeça dar a ele o direito de abrir nossas gavetas, nossa geladeira, nossas cartinhas escondidas debaixo da cama. Ele pode muito bem ficar sentado na sala de estar – e não passar daí. Para quê toda essa invasão? Convidados educados não fazem perguntas indelicadas. Não questionam a falta de alimento na dispensa. Não reclamam dos hábitos da casa. O convidado é um corpo estranho.

Pois eu não me contento com a sala de estar. E eu quero, sim, fazer perguntas indelicadas se preciso for. E quero passar quantos dias eu quiser, possivelmente todos e para sempre. Então não me convide. Não me trate com protocolos. Não seja um diplomata em minha vida. Baterei na porta. Se abrir, eu entrarei. Mas não posso me limitar a elogiar a decoração, e os lustres, e os móveis.

06 maio, 2009

Manual do solitário convicto

1º) Nunca tente se mostrar superior a um solitário. Com uma só palavra ele pode te fazer se sentir a pessoa mais só no mundo. Não busque argumentos enlatados para convencê-lo a mudar. Ele pode enlatar você. Porque para ser um solitário convicto, não basta ter levado um fora. Não basta ter traumas de infância. Nem crises existenciais. É preciso ser quase um advogado inescrupuloso – defender com toda a categoria algo que lá no fundo nem ele mesmo tem tanta segurança. Mas mesmo assim defende. E a solidão parece um estandarte. Ou mesmo uma bandeira que balança para lá e para cá, dizendo: eu sou independente. Aqui é território meu. Indivisível e soberano.
2º) Nunca tenha pena de um verdadeiro solitário. Nessa sua fraqueza ele pode persuadi-lo de que ser só ainda é o melhor caminho. Se bem que ele não dirá com essas palavras. Porque uma característica forte de um solitário é que ele sempre alega que não pretende nos convencer de nada. Ou nos influenciar em coisa alguma. Mas conquistar um território e não pretender invadir outros é coisa que nem na História da Humanidade eu ouvi dizer. O solitário apenas tem maior sutileza.
3º) A solidão não pode ser regra. Até que existe o tempo de estar só. Mas coisa difícil é saber reconhecer - e dosar - esse momento. Sabe que o remédio pode curar, mas se usado além, vicia, e mata. Não sabe? Assim é a solidão. Um remédio tarja preta. Porque ficar sozinho pode equivaler a respirar um pouco de ar puro de vez em quando. Mas também pode equivaler a ser asfixiado. Um pouco todos os dias. Ah, e quase esqueço: também não se impressione demais com os solitários convictos. A maior convicção que eles têm é de que são capazes de nos convencer da convicção que eles têm. =]
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(Que os solitários perdoem aí a brincadeira. Foi só pra quebrar um pouco a solidão =)

02 maio, 2009

Vá!

Acorde, abra os olhos. Levante-se, e banho! Vista-se, e coma. Saia e caminhe. Vá. Se desde o dia em que nascemos a única coisa que nos resta é ir, então vá! Vá crescendo, aprendendo, existindo. E, se de repente, no meio dessa estrada você ficar, eu entendo a sua dor. Porque ficar é uma coisa antinatural. Então eu sei que a tristeza de quem fica é maior do que a de quem vai. Porque quem vai se esquece contemplando as novas paisagens, e até esquece-se de si mesmo. E quem fica vê sempre as mesmas casas, e árvores, e olhares. E tudo remete a uma lembrança. E nada ajuda a esquecer. Quem vai, conhece novos mundos e ares. Respira coisas diferentes. E as lembranças parecem cartinhas dobradas numa caixinha de chocolate. Bonitas e estocáveis. Guardáveis. Quem fica, fica e vê o outro partir. Quem vai, vai e vê o outro ficar. Mas meu professor de Física dizia: " O movimento é relativo". E isso é verdade.
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Trabalhe, estude. Coma, e respire. Posso dizer que quem fica, não fica somente. E quem vai, pode não ir o tempo todo. Posso até dizer que as dificuldades fazem amadurecer, e que superar as crises nos torna vencedores. Mas acontece que quem fica é mais do que isso. Porque caminhar sozinho por uma rua onde um dia se andou abraçado, ir a um cinema onde um dia já assistiu com alguém ao lado, ouvir uma certa música e saber que, juntos, já a cantaram, é ser mais que vencedor, é mais que amadurecer. É ir. Seguir a vida. Então não me diga que quem fica não vai. Vai até muito mais longe, porque tem que ir em si mesmo, e buscar forças nem sei aonde para continuar indo, e levar o coração pra um lugar protegido, e cuidar dele. E curar suas feridas. Essa é uma das mais longas viagens que se pode fazer: a possibilidade de ir e sonhar uma vez mais, por mais que se tenha os pés ainda tão presos ao chão. E ser livre é assim. Não depender nem do corpo para ser. Para ir.
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