Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





15 junho, 2009

Canção do amigo

Pegue aquele disco de vinil que ninguém mais usa e encaixe na agulha. Consegue ouvir o som? Eu sou um dos melhores barulhos em sua vida. Pois de mim você não cansa. Porque comigo você balança, e não tem vergonha de dançar. Vem, não precisa de coreografia e nem de ensaio. Essa nossa amizade não perde o gingado. E quando mais preciso você toca em minha cintura, e eu em seu ombro. E então me arrasta pelo salão, pelas alegrias e dores, e eu me deixo conduzir. Vê? Nós dois parecemos um!

Saiba que eu percebo quando sou música e você erra minha letra, e me desafina. Mas eu te entendo porque, na verdade, eu não sou uma música. Sou uma trilha sonora inteira, espontaneamente inacabada... Mas eu faço valer a pena, não faço? Eu ainda te faço vibrar, e minha amizade ainda te surpreende, e você ainda gosta de ouvir minha voz. E nessa voz eu me dei, eu entreguei letra, melodia e partitura. E assim somos amigos porque, enfim, você se entregou ao meu ritmo, e eu ao seu. E a sua música toca bem fundo em mim quando estou triste, e quando penso: Não há ninguém.

Mas há alguém. Alguém que escutou todo o lado A, e delicadamente retirou a agulha, virou o disco e esperou pelo lado B. E não se intimidou com os refrões agressivos, os trechos tristes, as vãs repetições. Apenas me aprendeu, como quem canta para o meu mal espantar. São muitas as músicas que não cansam, que não se esquecem, que não deixam nunca de aquecer o coração. E dessa nossa amizade eu também não me canso, eu também não me esqueço, eu também reconheço o valor dessa canção.

08 junho, 2009

O estranho perfume que me atrai

Tem vezes que é aquela pessoa sentada ao meu lado no ônibus. Ou aquela que está na livraria olhando um livro que também me interessa, mas para não parecer invejoso, passo direto e nem dou atenção ao livro. Às vezes eu não entendo o seu jeito de se vestir, ou o penteado de seu cabelo, ou a razão de me perguntar as horas na fila do banco, mesmo quando estou com cara de poucos amigos.

Tem vezes que é aquela estranha que, enquanto está perto de mim, parece que tem tudo perfeito, e me faz apaixonado nem que seja durante o atravessar de uma rua. Tem vezes que é um estranho que fala alto, de grossos modos. Mas por alguma razão é gentil, e isso me constrange. Ai de mim se soubesse os pensamentos bobos que tive a seu respeito... Então esboço um sorriso, como que pedindo um perdão tácito.

Alguns estranhos são apenas estranhos, sem mais. Sem atração. E preenchem a cena como num filme em que os atores principais falam e falam, enquanto o resto apenas se move para lembrar que tudo prossegue, como sempre. Mas ainda que estejam assim, anônimos, são tão essência como eu. E guardam em si o perfume da vida que acontece fora de minha vida, e guardam em si as minhas possibilidades futuras: pessoas por quem poderei sentir amor, amizade, tristeza, companheirismo. Hoje eu me dei conta que sou uma estranha para o mundo, como todo mundo. Mas gosto de saber que, também eu, sou uma possibilidade para outros... Isso tem um cheiro suave, entende? Um cheiro de esperança diária.