Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





26 dezembro, 2010

Já anuncias a hora da partida!

Estive em alguns lugares desta cidade que anda assim, muito cheia de luzes...
Luzes e lugares que me inclinaram aos mesmos pensamentos. E sem saber de quase nada, me forcei a raciocinar sobre esse ano vindouro, e o que faria nele. Isso nunca me pareceu uma boa idéia, mas é que eu tinha que me sentir exatamente como eu sou. Igual a todo mundo. Nos planos, nos planos frustrados, nos planos b). Bem, eu não tenho um plano. Não agora. E também não tenho uma meta pela qual eu precise trabalhar num plano.
Me vejo assustadora porque não gosto mais da beleza como antes, a mesma que antecede a feiúra. Pois a beleza-deusa será cruel para suas servas, que nunca serão como ela. E as belezas-servas serão cruéis para tudo o mais, desprezando as pequeninas que lhes forem inferior, adorando somente àquela que não podem alcançar. A beleza tem tudo a ver com esta época. Com as luzes e com os nossos sonhos, que sempre precisam ser belos. Se forem sonhos feios, talvez nos chamem de maus.
Essas luzes me incomodam. Não consigo me concentrar no ano vindouro. Eu só consigo sentir coisas para todo o sempre, e tudo está solto no ar e fora do tempo, porque sinto uma falta e uma saudade absurda de coisas que nunca sequer existiram, e as coisas que já existiram me parecem mais encobertas de névoa que o próprio futuro. O que há neste momento, eis o que não consigo sentir, nem tocar. Nem ao menos compreender com a alma. O que eu tenho agora é o que mais foge de minha vida. E por mais que eu me cerque com arames e cercas, pela aurora já percebo que alguém invadiu o terreno, e comeu as frutas, e pisou no capim e levou consigo algumas flores. E só pelos rastros e marcas no chão eu percebo o que acontece agora, pois é invisível aos olhos. Será o amor?
Talvez tenha nascido uma esperança, um plano pequenino aqui, filho de um sonho que não é belo. Mas é um sonho meu, um sonho eu. Amo esse plano mesmo que mais belo que qualquer outra coisa ele jamais venha a ser. Sinto que ele não se dissipa no ar ante essa luta, nem que irá cuspir em meu rosto se porventura eu esquecê-lo. Um plano que me permite executá-lo e me recebe mesmo do jeito que eu estou, tão suja e pó.

16 dezembro, 2010

Made in China

As esquinas serão oblongas e os pedestres darão saltos Matrixiais para atravessar a rua, para pegar o ônibus que já está indo lá na frente ou ainda para alcançar andares sem precisar de qualquer escada, economizando a energia do elevador. Este será reservado unicamente para os deficientes.

Quando vislumbrei esse outro mundo, sem lixo nas ruas, sem carne bovina nos supermercados e, principalmente, sem qualquer possibilidade de dar tiros (e socos na cara muito menos), eu corri imediatamente à procura do senhor Aldous, meu pai de longa data, e lhe pedi que me explicasse tais coisas, e me permitisse fotografar o planeta para colocar as fotos no meu Álbum dos Planetas. Assim eu finalmente poderia concluir meu TCC galáctico.

Eu também queria capturar o instante exato dessa transição no mundo, e isso só seria possível graças à incrível máquina que eu ganhei de presente no solstício do meu aniversário. Ela possuía os modos 1 ano em 1 segundo e 1 segundo em 1 ano. Sentei na pontinha mais alta do Himalaia e aguardei o tão admirável mundo novo...

(Pausa para contemplar essa imensidão azul do céu, esse mar de gelo que vai por toda a montanha, e aqueles insetinhos que passeiam em cima de uma pedra naquele jardim do Tibete).

...e me perguntei se realmente esse mundo antigo não teria nada de admirável.

Me impacientei porque não via mudança alguma no mundo. Então o cansaço veio e eu fechei os olhos por cinco segundos. Quando os abri, me espantei bastante. Tudo estava vermelho e lilás. O mundo inteiro, desde a cordilheira até os seus confins. Fechei os olhos novamente, por dois segundos dessa vez. Tudo havia ficado verde e cinza. Passei um longo tempo de olhos abertos, até eles ressecarem, mas nada aconteceu. Então acionei a minha máquina e a configurei no modo 1 segundo em 1 ano, para que depois de abrir os olhos eu pudesse ver através dela o que eu não conseguia perceber. Apertei o play e fechei os olhos. Por um único segundo. E assim tudo se transformou uma vez mais, o mundo cheio de cores que eu jamais tinha visto, como o manauen e o lolo, por exemplo. Cores lindíssimas. E enfim pude ver os saltos Matrixiais (as pessoas pareciam pipocas).

Me voltei ansiosamente à máquina, para assistir a todo o processo da visão que eu tinha acabado de presenciar. Mas sentada naquele pedacinho do Himalaia eu assisti ao vídeo por um ano inteiro, e depois por mais outro ano para me certificar, e apenas o que pude ver foram meus olhos apertados e as pálpebras tremendo de mansinho, enquanto algo invisível ocorria à minha volta. E três segundos ou trinta anos que fossem não seriam suficientes para a máquina perceber e acompanhar a força e a rapidez das mudanças que ocorriam toda a vez que eu ficava de olhos bem fechados. Confusa e decepcionada, lancei a máquina Himalaia abaixo.

04 dezembro, 2010

Execução

A goteira caía exatamente entre o encaixe de duas das pedras. E assim a água ia escorrendo como um pequeníssimo rio caudaloso por entre as demais fissuras, fazendo um emaranhado de linhas pelo chão empoeirado e frio. A frieza do chão e das paredes vinha da total ausência de luz do sol ali; a iluminação vinha de um ou outro lampião. Uma masmorra era assim. Parecia ser um mundo inteiro, visto que quem lá estava perdia a capacidade de imaginar qualquer outro mundo, ainda que melhor este mundo pudesse ser. Um mundo pior ninguém ousaria imaginar. Lamentos nunca cessavam, e ganhavam força ao anoitecer – a noite era imposta por um apito –, contrariando e estressando profundamente os guardas. Não é que não houvesse cansaço. Mas a rotatividade de prisioneiros era muito grande, e quando se chegava ao limite da esperança não havia mais necessidade de silenciar, pois já era chegado o momento. Resignados não havia. A violência ali era tão natural como a de tantos outros animais.

Naquele dia – o dia era imposto por um apito e duas batidas nas grades - uma mulher foi feita prisioneira. Pérola lançada aos porcos. Todo o seu grito foi engolido quando se deparou com inúmeros homens perplexos ante sua presença. Pela primeira vez houve silêncio, vergonha e preocupação com uma única e feminina opinião alheia. Ela olhou a cada um, vagarosamente, e seu olhar não se demorava em nenhum. Aos poucos este processo ficou automático, já não se prendia às fisionomias, apenas olhava e olhava enquanto ganhava tempo para si. Ergueu a cabeça e perguntou: “Quem é o próximo a morrer?”. Do mais fundo da escuridão saiu um ratinho, quase cadavérico, com olhos assustados, dentes podres e o respirar desesperado, pronunciando-se. Ela foi calmamente até ele, ainda receosa de que os homens a atacassem. Em paz ela chegou próximo ao mais fundo da escuridão.

Tocou na mão do rapaz, cujos olhos assustados eram também doces e belos, e podia sentir sua energia de vida indo em direção a ele. Enquanto isso os demais homens permaneciam suspensos, sem lamentações e sem discórdias. Porque havia uma mulher. E ela parecia ter uma missão. E então esta mulher tocou na mão de cada um deles, lentamente, e depois disso dançou no meio deles uma dança triste, embalada pela sua voz arcaica. Os homens esqueceram de qualquer vida, da sensualidade da dança e repetiram o refrão, como o som de mantras misturado ao som de muitas águas de um rio. A vida ali assumiu outros corpos, outros espaços que não os mesmos. Não haveria no mundo deles nada melhor depois daquilo. Então fuzilaram um único pensamento. Foi muito sangue esparramado na parede. Foi necessária muita força e violência dentro dos corações; foi muito grito calado. Não haveria no mundo deles disparo maior depois daquilo.

30 novembro, 2010

Asas da liberdade

Meu primeiro livro era assim. De idéias curtas e fáceis, e parecia descrever o mundo tal qual ele era. Meu segundo livro por sua vez começou a descrever as idéias curtas e fáceis, e parecia desfazer do mundo. Meu terceiro livro se desfez das descrições, e foi em mim só livre-sensação -não induzida, não corporificada. Meus demais livros foram uma desconstrução e re-arrumação dos anteriores, para me derramar novidade de pensamento, de sentimento, de percepção. E de tanto derrubar parede e levantar parede a casinha ficou bem disforme, com duas portas no banheiro, com a pia no quarto, e na verdade nem quarto havia mais. E a cultura que se fazia em mim era confusa e de pouquíssima efetividade. Como se eu tivesse uma casa disforme, mas não tinha importância porque nem sequer eu morava nela. Na verdade era tudo meio inútil porque sinceramente eu morava mesmo era na rua. E nenhuma casa parecia ser exatamente meu lar. E nenhum lar se parecia com uma casa. Daí abria um livro e ficava debaixo dele se chovia. Me abanava com outro se sol fazia. Fazia de mais outro travesseiro no sono, e arremessava ele se alguém tentava me violentar, e falava sobre algum se me diziam ignorante, e pensava em muitos se minha mente estava entediada, e andava com qualquer um debaixo do braço se me sentia carente de reconhecimento, e decorava algum trecho dele se precisava de dinheiro. E assim os livros me usaram como pássaro que distribui semente, e em cada rua que eu ia, todos sabiam qual era meu endereço: um livro. Uma idéia. Uma disformidade tão eterna, inesgotável, de dizer para depois desdizer, e de saber que ia ser assim até que o universo viesse e nos dissesse pela sua boca de buraco negro que as leis da física nos enganaram direitinho.

Morei em tantos livros e em tantas idéias, e nisso fui às nações da Terra, e aos reis, e aos pecadores, e às guerras, e aos filósofos, e às histórias de amor e de dor, e aos suspenses e ficções. E cada casa me convidava para nela morar, e eu pássaro voava a levar sementes e sementes, sem árvore nem abrigo certo. Só a certeza do abrigo. E a certeza da semente. Um dia farei o trajeto de volta, da primeira casa, aquela com um quadrado, um triângulo, e outro quadrado (menor) para representar a janela. E verei desde as suas fundações até a sua disformidade final, e a minha velhice nas marcas das paredes, no afrouxado no ferrolho, no cansaço do bater de asas, na floresta bonita e descontínua que as sementes criaram. Preciso tanto de um voo livre neste momento. De um voo livre, e de um livro eu me livro - para criar, não reproduzir apenas. E quanto a mim-solidão, só se saberá que nasci, e habitei. O resto ficará dentro dos frutos. E tudo recomeçará uma vez mais, até que o universo venha e acabe com as leis dessa vida.

28 novembro, 2010

O divórcio

O barulho de vinte panelas caindo no chão, uma após a outra, uma após a outra. Agora, as tampas das panelas. Fico com dor de cabeça e vou para o quarto, onde não há cama. Faço as revistas de travesseiro e adormeço no chão. A algazarra dos meus filhos me acorda. Já não querem mais o desenho animado. Então me arrasto até a cozinha (as panelas estão nos armários) e preparo o café-da-manhã. Depois elas correm para a piscina e eu corro para o quarto. E adormeço novamente.
Era divertido quando ele tentava me seduzir. Para uma moça tão cobiçada como eu era, havia que se apelar para a criatividade. E eu sei apreciar uma boa criatividade. A dele era tão viva e sagaz que nem sequer convinha ser comentada. Eu sorria e ficava silenciosa. No começo eu exagerava, o via como a um vassalo, nem sei o que me passava pela cabeça. Mas quando os outros rapazes perceberam que o negócio era sério e foram perdendo o interesse e a insistência, eu comecei a exagerar novamente e a me ver como uma ingrata, e nada que eu fosse ou fizesse seria suficiente para merecer sua companhia.
E o amor, que eu só conhecia de ouvir falar, habitou em mim.
Desencadeou bagunças inimagináveis, e reconfigurou todas as coisas. Ninguém mais veria o que ele viu. A minha existência explodir e expandir como um universo, meus pensamentos em chamas por esfriar. Naqueles dias mais amenos, dias de rotina - e foram tantos esses dias, nós lançávamos os nossos corpos na vida mesmo. O cansaço não trazia mais medo, porque nossas mentes a cada dor se renovava, e assim sempre havia o que se descobrir ou re-admirar. Como Vidas Secas, que a cada vez que leio me acende algo diferente.
E a nossa casa, nossas coisas, nossos filhos. Nossas noites dormindo juntos e nossas manhãs, ele sempre preocupado em levantar antes e escovar os dentes e me trazer um copo d'água. Então como se quer que de repente eu me levante desse chão sem o meu copo d'água? Sem todo aquele cimento que me colocava de pé?
As cortinas, o porta retrato, os filhos. Dou as costas e jogo as panelas de volta pro chão. Não aceito que elas fiquem em melhor estado que eu. Mas calma. Drama sempre me causou desprezo. Então me resigno. Deixo as crianças na casa da avó e vou assinar os papéis. Como ele estava bonito, terno e gravata. Como ela era bonita. Ele não precisava tê-la trazido. Ela segurava firme o braço dele, como que dando apoio. Apoio contra quem?
Não desta vez.
Sento na mesa, tiro o vestido em dois gestos, cruzo as pernas. Estou com uma cinta liga, meia preta, salto preto. Solto o cabelo, minha boca vermelha chega bem junto a ele. E ele vem junto a mim (estou a puxar sua gravata em minha direção). Peço: "Volta pra casa...?" com voz suave e carinhosa.
Eu nunca o decepcionaria.

21 outubro, 2010

Sua leveza

Que me perdoe o homem que eu amo, mas escrever sobre o meu ex é fundamental. E que minhas promessas me perdoem, mas meus pensamentos aqui, neste momento, são todinhos deste passado complexo e só meu. Que o homem que eu amo novamente me perdoe, se meu sofrimento não pertence a ele. E que minhas posses me perdoem, se hoje eu não me sinto dona. Perdão por sentirem-se perdidos. Hoje será um dia em que eu não colocarei limites. E que consigam me perdoar cada vez mais, até que finalmente tornem-se livres de mim. Me perdoem! Me perdoem... Vocês precisam me perdoar para felizes serem. E não sendo suficiente isto que dou, eis-me aqui para cometer novos erros e mais ainda precisar ser perdoada. Pois eu sou boa para vocês, não os quero insatisfeitos, não os quero inúteis a viver sem troféus nem medalhas. Eu proporciono a necessidade de superação. Então eu só posso me sentir uma grande pessoa. Uma oferecedora de oportunidades. Potencializadora da capacidade humana. Se um dia os erros se esvaírem e tudo tiver sido perdoado, e perdoados os acertos, e sentirem-se livres, e forem felizes, perdoem-se a si mesmos. Por não terem cometido erros iguais aos meus, nem por nunca terem acertado como eu, e por sempre e todos os dias terem me perdoado fácil demais.

23 setembro, 2010

Paz

Como era difícil não ter pra quem contar os segredos! Por isso ele sempre voltava e devolvia os chicletes e os chocolates. Ela por sua vez ainda permanecia meio ríspida e nem sequer o encarava, com aqueles olhinhos brilhando de um ódio bobo. Claro que ele não tinha paciência para aquelas coisas de menina, mas era preciso ficar e esperar até que o orgulho dela fosse se estabilizando. Daí ela se cansava, guardava os doces na mochila e lhe dirigia as primeiras palavras (ainda envolvidas com fogo). Mas então ele abrandava, abrandava, e enfim ele tinha de volta sua hiper-amiga-parceira-companheira-escoteira-comparsa-confidente-de-todas-as-horas.
Naquele dia voltavam da escola pelo caminho mais longo, porque a conversa era interessante demais e eles precisavam terminá-la antes de chegarem em suas casas. Então encontraram uma borboletinha machucada perto do meio fio. Foi nesse dia que a menina eternizou o garotinho no coração dela. Enquando ele levantava a borboleta pelas asinhas e a colocava na mão para que pudesse observá-la melhor, ela pensava que as brigas bobas nunca seriam suficientes para separá-los neste mundo. Como ela poderia querer mal a alguém que já acordava pensando em chamá-la para brincar de subir em árvore?
A borboletinha morreu nas mãos dele, e ele ficou bem triste. Enterrou ela no jardim da dona Olga. Quando se virou para a garotinha, ela tinha um sorriso esquecido no rosto, e ele não entendeu e até ficou meio contrariado com a insensibilidade dela diante de tão triste morte. E a partir daí ele nunca mais a compreendeu. A infância já ia embora, e chegava a adolescência, e chegava a vida. E para ele a garotinha passou a ser mais uma oblíqua e dissimulada, porque no dia em que uma borboletinha morreu ela havia sorrido.

13 setembro, 2010

Guerra

Vocês não podem entender uma mulher. E isso não é uma constatação, é uma ordem. Não se arrependam de uma mulher, não queiram voltá-la atrás, não tentem recomeçá-la. Não mudem o seu sol de lugar só pra ver como fica a sombra. Não mudem sequer a sombra, só pra ver se ela muda de lugar. Não se preocupem com a sua espera, não queiram que ela se apresse, não mandem que ela se cale. Não decidam nada por ela.

Deixem que ela goste de dormir de conchinha, que continue a ter a esperança por sobrenome, que prossiga tentando ser diferente a partir das segundas feiras, que seja óbvia, previsível, e que seja tantas. É isso que a faz viva numa cidade tão pequenina e incompreensiva com o seu ego. Permitam que ela tenha nascido mulher. Nascer assim é algo que não tem volta. É um segredo que não se conta, que não se divide. Adiantaria dividir? Não adiantaria. Então vamos lá.

Como sonhar por um bebê que se carrega no ventre sem afrontá-lo em sua futura personalidade? Poderíamos repetir mil vezes: não, não faça isso. Mas agora é sempre tarde. Nós pensamos, pensamos isso. Isso, nisso, aquilo, por isso, omisso. Choques elétricos? Perderam a graça. Frio. Vocês sentem frio. Sentimos pena? Não sentimos. Mas aí deixamos vocês com uma vontade doida de viver mais um dia. E fazemos mais: não lhes damos mais um dia. Se nos fazem perguntas, damos as melhores respostas. As que fazem refletir por horas inteiras, até que não se chegue a lugar nenhum. Isso é maldade? Vejam, nós dormimos o sono das injustas. Das que nunca foram boazinhas consigo mesmas. Colocamos vocês na cadeira de rodas, vamos levá-los agora a um passeiozinho. Primeiro, deitamos vocês aqui. Isso, com cuidado. Agora amarramos suas mãos com essa corda, firme. Não, com esse nó não, que é fácil de soltar. Amarramos as pernas também. Agora leremos um texto do Bukowski. Aliás, Bukowski não, que até com ele conseguimos ficar sensíveis.

10 setembro, 2010

Historinha ao contrário

O menino que inventava historinhas estava o tempo todo olhando as pessoas e imaginando coisas. Mas apesar de inventar historinhas, ele não se considerava um "inventor de historinhas". E não era só isso. Ele também meninava muito por aí, e não se considerava menino. Ele futurava muito, inclusive. Mas não acreditava em futuro. Na verdade ele não acreditava em três coisas: em futuro, em assombração, e na maldade das baratas.
Em todas as outras coisas deste mundo ele acreditava, e justamente por isso observava as pessoas. Era divertido brincar de acreditar no mundo delas, e fazer de conta que levava a sério o que elas levavam a sério. Como se ele estivesse em um cinema bem bem gigante, com coisas e cenas que pareciam muito reais. E ao voltar pra casa, voltava extasiado de tanta emoção, de tantos efeitos especiais e tanta criatividade! Ou então voltava cheio, de saco cheio de tanta porcaria. Mas enfim o cinema era um lugar bom de se viver. E tinha todo tipo de ator, e todo tipo de desfecho - que o menino chamava de reconfecho, porque toda fechadura de alguma coisa era uma abridura de outra coisa. E toda história remetia a outra, que nem os filmes do Tarantino.
Como já disse, e como ficará demonstrado no último parágrafo, ele gastava seu tempo inventando histórias (esdrúxulas).
Porque em geral as conversas que ele escutava no meio das gentes eram ctrl c/ctrl v demais,
e os desabafos eram sempre enter-delete-delete-delete-digitando novamente.
E NA HORA DA BRIGA TUDO ERA MUITO CAPS LOCK.
Daí as histórias que ele inventava faziam muito mais sentido porque não precisavam fazer sentido. Inclusive esse texto aqui está meio confuso por causa do próprio menino. Quando pensava em escrever e descrever algo sobre ele... Tcham! Não dava mais tempo. Ele já havia se tornado outra coisa. Não sei mais o que dizer sobre o menino. Apenas que ele era alguém gostável e doce o suficiente para que eu tivesse vontade de tentar tirar-lhe uma fotografia em forma de texto. Agora mesmo, por exemplo, ele já mudou de posição, e está a correr por aí. E daqui a pouco vai estar meio colorido, e logo mais estará muito compenetrado em alguma idéia fundamental para a humanidade.

Agora neste momento ele é inventor de historinhas e ----- medroso
Agora neste momento ele é inventor de historinhas e ----- apaixonadinho
Agora neste momento ele é inventor de historinhas e ----- manipulador
Agora neste momento ele é inventor de historinhas e ----- alegre
Agora neste momento ele é inventor de historinhas e ----- mais nada
Agora neste momento ele é inventor de historinhas e ----- briguento
Ctrl c Ctrl v ----------------------------------------------------- (o infinito)

- Ah, vai... Fala sério! Diz aí se não fico bonita desse jeito...
- Na verdade até que você seria bonita, mas precisaria colocar um saco de pão na cabeça e fazer dois furinhos pros olhos.
- Mas eu JÁ estou usando um saco de pão!!!
- Verdade... Então use um saco de pão em cima desse saco de pão, oras. Não complique as coisas.

delete-delete-delete
Enter.


06 setembro, 2010

Eu amo jujubas

Geralmente eu me defino por uma palavra: es-tra-nha. Não poderia ser diferente. Disso vem a razão de eu escrever textos assim, tãããão estranhos. Então, por até hoje eu nunca ter confiado exatamente em ninguém para dividir minhas estranhices mais secretas, eu preferi escrever sobre as coisas desse mundo, sobre as pessoas no mundo, e minhas sinceras dúvidas e sensações sobre ele. E assim me vem à cabeça tantos e tantos pensamentos, que acho que nunca terei tempo de falar exatamente sobre o mais profundo de mim mesma. Ainda bem. Faz dois aninhos que escrevo aqui no blog, e constato que a minha visão sobre várias coisas nunca vai poder dizer quem eu sou. Pelo simples motivo de que eu quase nunca escrevo sobre mim, mas sim sobre os outros em mim. E também porque até isso muda com tanta intensidade, e velocidade, que seria perda de tempo congelar qualquer história dessas no tempo, pra ver se continuaria fazendo sentido mais tarde. Reli quase todos os relatos que coloquei aqui, e isso foi pra mim como uma colcha de retalhos, pedacinho a pedacinho, tudo muito bem costuradinho por palavras, metáforas e muita vontade de conseguir se expressar e se fazer entendida por qualquer um, cada um podendo entender em sua liberdade de pensamento. Porque pra mim a escrita lacrada, reduzida, intolerante com outras interpretações me fere um dos princípios mais caros da vida: o direito de ver e compreender segundo cada alma.
Antes eu escrevia no papel. Mas depois eu pensei em como seria legal se alguém se identificasse com alguma idéia, e quem sabe conseguisse interpretar do mesmo jeito que eu. Aqui eu acabei escrevendo um pouco melhor que antes porque pude desenvolver um estilo, pude esticar a criatividade. E, por fim, pude me sentir melhor e extravazar minhas impressões. Que coisa bacana é escrever! =) É um motivo de real felicidade pra mim. Adoro quando me vem uma idéia-alfinete na cabeça (quase sempre uma frase, bem pontiaguda), e ela fica me provocando o tempo inteiro, até que eu a coloque em algum lugar. Daí eu sento, e escrevo e escrevo e escrevo. Ufa! =) Cada historinha que eu termino me traz um alívio...! Eu me divirto com minhas maluquices.
Acordei lembrando, que engraçado, do japinha (tipo-virando-um-dos-melhores-cozinheiros-do-mundo) e sua concentração profunda em fazer um perfeito yakisoba. Lembrei de Beto sendo depilado e eu naquela carnificina alegre! Ele salvou minha noite. De Gabi brigando comigo porque assim todo depilado ele ia ficar menos sexy. E eu rio e me divirto com muitas coisas, com meus amigos antigos que recuperei, com esses novos amigos tão especiais que eu fiz, com tanta coisa inesperada que começa a acontecer. Mas minha vida sempre pareceu novela mesmo, eu já estou acostumada. Não, não estou. Mas ainda assim eu quero essa vida.
Feliz dois anos, meu bloguinho. =) Você é um pedacinho de mim.

27 agosto, 2010

E o amor se manifesta...

Eu emburreci. E se você me ama menos por causa disso, é melhor ir descendo do barco. Porque minha burrice vem de querer você, mocinha. De eu tocar em seus cabelos todos os dias e sentir neles cheiro de problema. Problema bom. Já ouviu falar em problema bom? É uma coisa assim, que me consome os dias, me deixa irritadiço, mas no fim das contas quem eu seria se não sentisse essas coisas? Ai de mim se não sentisse essas coisas. Fiz pra você um poeminha. Mas eu acho que nunca vou te entregar, porque acho que ele ficaria menos bonito. O sentimento dado vai ficando menos intenso, como a força das palavras quando são lidas de qualquer maneira. E se bem te conheço, você iria ler de qualquer maneira. Assim, sem pausa, vírgulas, sem a entonação e o sentimentalismo que eu entreguei. Mesmo que eu declamasse não ia adiantar muito, seus ouvidos são péssimos. E você se distrai com facilidade demais. Mas que posso fazer, mocinha? Se em você eu tenho a minha melhor graça, a minha melhor falha, o meu mais nobre erro? Você é maluca assim, contraditória assim, e acha que o tudo é sempre suspeito. Mas dia desses eu emburreci. E se você me quer menos por causa disso, é melhor ir sonhando menos. É melhor ir querendo menos ser feliz. Porque nunca que você vai continuar ao lado de alguém exatamente igual ao dia que você conheceu. As coisas mudam, mocinha. Eu mudei. Mas o meu amor só vai mudando de frasco, de cor de água. Os cheiros dos outros você percebe melhor, porque não está acostumada. Mas o meu é o único que te faz lembrar das coisas necessárias na vida, e faz ferir suas narinas. Você não percebe, mocinha. Você não percebe. Mas eu emburreci. Na madeira, no cimento, na poeira. Um cheiro perdido no ar. E a essência, essa fica ainda mais longe... bem fraquinha bem fraquinha.

23 agosto, 2010

A escola

Olá, bom dia! Vim dar alguns comunicados neste primeiro dia de aula. Pode-se dizer que um grande defeito nessa vida é: fazer de conta que se faz algo com um enorme sacrifício, quando na verdade esse algo que se faz é pela mais deslavada, cínica e espontânea vontade. Crianças, não sejam tolas. Eu bem sei. Sei que nem todas as birras que vocês fazem por causa da salada procedem da pureza de vossos corações de não gostar de verduras. Mas eu entendo que irritar os pais faz parte do jogo de conhecê-los melhor. Entretanto, seja o que for o lanche de hoje e dos demais dias, sintam-se obrigados a comê-los. E por falar em pais, atire a primeira pedra se algum de vocês nunca tentou desvendar-lhes a infidelidade. Mas nisso vocês são mais inteligentes, porque sabem que para perceber a infidelidade do papai não é tão proveitoso observá-lo quanto observar a mamãe. O olhar dela, o jeito que ela prepara o almoço, o jeito que ela respira quando o papai chega em casa depois de um dia de trabalho muito cansativo. Entretanto, nada de depressão na hora da aula. Alunos dispersos, conversadores, cabisbaixos e arruaceiros não merecem o melhor do nosso tratamento.
E uma última e não menos importante coisa: esta é a professora Norma. Será a professora de vocês neste ano. Só que antes tenho algo a falar sobre ela. Um dia, quando a professora Norma fez cara de choro, nos solidarizamos. Óbvio que ela nunca foi um ícone do autocontrole, mas fazer aniversário e não ganhar um buquê de rosas (tipo aqueles que um motoboy entrega, bem na hora do trabalho) era coisa séria demais. Foi triste não vê-la fazer a tão sonhada expressão de surpresa.
O que fizemos? Levamos a professora Norma a um happy hour, pra ver se a gente modificava aquele quadro tão decadente. Onde erramos? Em termos levado a professora Norma a um happy hour, pra ver se a gente modificava aquele quadro tão decadente. Ela escutou um discurso longo e acalorado de um dos nossos, riu de nossas piadas, assoprou velinhas e fez um pedido, no que cumprimos corretamente nosso papel de transparecer curiosidade sobre o tal pedido. Enfim, ela ficou bem. Bem melhor que todos nós.
Não que tenha bebido muito álcool. Apenas se sentiu querida por seus amigos, no que retribuía com largos sorrisos para todos os cantos. E nas trocas de olhares em todos os cantos cada um sabia que cada um se perguntava o por quê de ela se sentir tão bem assim. Ficou um mal estar generalizado. Pareceu-nos que a professora Norma não conhecia o protocolo, mas também não quisemos dá-la por inocente.
No dia seguinte ela chegou toda feliz. Colocou uma foto mais recente no perfil do celular, e insistia com o sorriso insistente. Como não estávamos no melhor de nossos interiores, decidimos em acordo tácito que ela deveria se igualar aos demais. Foi assim que demorei quarenta minutos para levar os cadernos e as provas que ela havia pedido, que Ronaldo não elogiou seu vestido novo, e que Mariana sugeriu de leve que ela fosse a uma academia.

19 agosto, 2010

stratégie

- "É como eu sempre digo. Na hora do aperto, meia lua e soco pra frente."
- Sim, mas nós temos um pequeno dilema. Você quer que eu morra, e do lado de cá eu me preocupo cada vez menos com sua saúde.
- Então não é dilema. É a solução. Poderemos enfim começar uma boa guerra, tenho certeza disso.
- Mas enquanto o sol não nasce e nossos peões não pegam em armas, senta aqui um pouco, meu velho. Vamos conversar um bocadinho só, acender nosso cigarro. Que os parceiros que andam ao meu lado não são boa companhia como você. E nem a minha confiança neles é maior que a confiança que eu tenho em você. Pelo o menos eu sei que você vai me proporcionar uma batalha de homens.
- Eu vou me sentar sim, porque minha coroa para esses anos de luta foi ter aprendido a andar ao seu lado. Fico feliz por você acreditar em mim.
- Tem isqueiro?
- Esse céu está bonito hoje. Talvez as estrelas saibam o que irá ocorrer debaixo delas. Quando você for, irei sentir saudade.
- Mas SE eu for, quem vai andar ao seu lado? Contra quem serão as suas estratégias?
- É... É uma coisa a se pensar. Bem, talvez eu procure novos inimigos, alargue as tendas, aumente os territórios.
- Não sei se é bem assim. Se lembra da Arlene? Aquela mulher quase destrói a tropa inteira do meu lado, e quase põe a baixo o comandante de seu principal batalhão. Depois que a fuzilamos, alguma outra conseguiu tal proeza? Alguma puta fez tanto sucesso entre nossos soldados como ela?
- Tens razão, meu velho. Hoje tudo o que se vê são cartas melancólicas para as famílias, de arrependimentos passados, de juras de saudade. Eles não tem mais com o quê ocupar o tempo vago. Isso tem enfraquecido um pouco as forças. Andam com medo de morrer.
- Pois é, meu caro. A Arlene era nosso melhor suprimento, e acabou morrendo fuzilada. Inimigos novos não significam inimigos melhores. Nem as conquistas, por sua vez.
- Pois é.
- Mas vamos às boas. Anda bem de armas?
- Mas isso é informação que eu não posso te dar, companheiro! Na verdade eu não gosto muito que você me faça essas perguntas, porque por mais escabrosa que seja a minha resposta, nela você sempre encontra a verdade.
- Fazer o quê? Coisa de inimigos.
- Sim, coisa de inimigos.
- Por outro lado é bastante vantajoso que nos conheçamos tão bem, não acha?
- Em alguns aspectos.
- O que você precisa entender é que quanto mais nos enfrentamos e mais adiado fica o fim da guerra, mais chances você perde de vencer. E comigo ocorre o mesmo.
- E como se decidirá a vitória, então?
- Se decidirá com aquele que mais rápido decodificar o outro, e se adiantar aos seus passos.
- Então parece-me que estou em desvantagem.
- Por certo.
- Coisa de inimigos...
- Sim, coisa de inimigos, mas se quiser um anti-conselho, vou te dar. Não perca seu tempo tentando andar à frente dos meus passos. Eu só reajo na medida que você reaje. Logo, os passos calculados precisam ser os seus. Você precisa saber aonde você quer me levar, como num jogo de xadrez. Mas me sinto um idiota te explicando coisas tão óbvias.
- E você não terá elementos surpresa? Você sempre vai agir à sombra dos meus ataques?
- Pior que sim. Meu elemento surpresa na verdade é não ter elemento surpresa, não te oferecer grandes desafios. Te deixar entediado e irritado. Além do que, já percebi que você é mais atingido quando seus planos são esfarelados do que quando eu me antecipo a eles.
- Ainda não acredito que você acabou de me entregar sua estratégia.
- Não faz mal. Se eu soubesse que você faria alguma coisa com essas informações, eu jamais teria te contado. Amanhã talvez você até duvide de que as ouviu. Mas a gente aceita o inimigo que a gente tem, com suas limitações e tudo. Tem outro cigarro?
- É meu velho, parece que o sol chega para nós.
- Foi um prazer esta conversa. Pegue aqui minha mão. Mesmo sabendo que não mais terei inimigo igual à você, trocarei a grandiosidade do sentido que sua existência me proporciona por um tiro, bem no meio de sua testa.
- Também foi um prazer para mim. Mas eu também tenho uma estratégia, e acredito que também posso contá-la.
- E qual seria?
- Você.
- Eu sou sua estratégia? Não compreendo, mas achei interessante. E por quê você está me contando isso?
- Não faz diferença... Se eu soubesse que com isso você me daria a vitória e a paz, eu jamais teria te contado. Talvez até me rendesse.


17 agosto, 2010

Meia noite

Não temerei o terror da noite, nem a seta que voa pelo dia, nem a peste que anda na escuridão, nem a mortandade que assola ao meio-dia. Mil cairão ao meu lado, e dez mil à minha direita, mas eu não serei atingido.*

Mas eu não fui atingido. Pensava que viriam os inimigos à minha procura, com seus dardos inflamados, e suas armadilhas secretas, e a sede. Mas só havia a tranqüilidade das coisas e a violência de mim, procurando os buracos para neles cair e deles fugir.

E agora, José? Não me fale dessas coisas. Por que perde tanto o seu tempo com pensamentos infrutíferos, terrificantes, paralisados no tempo e no espaço por idéias cruéis e secas, vagarosas e limitantes, enganosamente libertárias? Eu já contei a sua história uma vez, e contarei quantas outras for preciso até que você descubra a palavra chave que destranque as portas que você deveria ter aberto. E não abriu. E feche tantas outras que você abriu por pura meninice, porque achava justo ser infeliz.

Eu não sou um velho sábio que tem o mistério de sua vida em minha mão. Eu nunca te direi algo que faça tanto sentido a ponto de aquietar esse seu coração. Eu só tenho a meia noite ao seu lado. O único momento em que estamos juntos com uma sensação de infinitude. Eu te dou o sereno da meia noite, o pensamento na meia noite, o vago, o transporte da mente, o olhar para o canto da parede sem no entanto estar ali, e estar lá.

Não sei se você consegue ver o terror, a seta, a peste, a mortandade. Mas você pode ver tudo o que eles fizeram. Olhe para o seu lado. Olhe para os tantos à sua direita. Olhe para o que te foi atingido. Amarga tão fundo o sabor de guerra acabada, os despojos por todos os lados, a ausência de vida por todos os lados, e você não queria, mas foi o único sobrevivente. Meio morto meio vivo, meio cicatrizado meio ferido, meio vitorioso meio derrotado. E até que você sente inveja dos heróis tombados. Heróis inteiros.

Você está com tanto medo agora, não está? Eu sei o seu medo. Mas o seu espírito é forte, ele vai resistir ao que virá. E depois da resistência, pelo que você lutará? Lute contra você mesmo, e todos os dias e para sempre. Porque a sabedoria não nasce dentro de você. Ela é sacudida e plantada brutalmente com a força de muitas mãos dentro de nosso ser, e só crescerá se encontrar terra boa e favorável; se souber que pode confiar em nós. Mas se você tiver medo da dor da sabedoria, então você realmente não merece viver.


*trecho dos Salmos 91.

28 julho, 2010

Scarface

Sentada na cadeira que trazia aquela coisinha de tranquilidade. Então você me pergunta: Aonde você estava? Por que você estava sentada nessa cadeira? Não, seu bobinho. Não me pergunte essas perguntas obrigatoriamente perguntáveis. Me pergunte qual a cor do sapato que eu estava usando, me pergunte se lá tinha janelas ou para que lugar eu olhava mais. Me faça entender o quanto você tem vontade de me imaginar, de ver o que não é aparente. Mas voltando. Essa cadeira, na qual eu estava sentada, era uma espécie de divã. Bem confortavelzinho. Diante de mim havia uma pessoa. Que nunca tinha me visto antes, nunca tinha pensado em mim e nunca tinha se perguntado por que raios eu estralava os dedos com tanta frequência. E diante dessa pessoa, que por causa de um diploma achava que poderia me ajudar com todos os meus problemas, eu descarreguei uma história. Espero que você não me pergunte qual história. Eu não posso contar, prometo. Se eu contar, nascerá uma verruga no dedo do meu pé. Além disso, seria mais legal se você me perguntasse sobre o que mais me chamou a atenção naquela sala. E isso eu posso te dizer: foi uma pasta classificadora. Mas voltando. Diante dessa pessoa eu narrei a história que eu sabia sobre mim. Sim, pois existe também a história sobre mim que eu ainda não sei, e que só os anos vão me trazer. E da história que eu conhecia eu não escondi nada, exceto uma ou outra sensação mais secreta. Coisa pouca. Enquanto isso, a pessoa fazia uma cara de "sua história não me surpreende, mas mesmo assim estou atenta". Ótimo, pensei. Adoro as falsidades e o código de ética das profissões. Poxa, minha história levou um tempão pra ser contada. Tinha muitas sinuosidades. Quando terminei o céu já estava bem escurinho, e eu só conseguia pensar em como ia voltar pra casa. Resultado: não consegui me concentrar nas observações que a pessoa me fazia. Resultado do resultado: tudo foi inútil. Deve ter sido por isso que saí de lá muito etérea. Eu sempre amei as doces inutilezas. Elas são tão puras, tão desprovidas da necessidade de um acontecimento futuro... Achei melhor caminhar um bom bocado depois dali, pro vento secar o tecido da minha alma lavada, com aquele cheirinho bom de amaciante.

19 julho, 2010

Provocação

"Talvez você não saiba, mas". Sim, eu sei como você me acha esnobe quando eu digo essa frase. Primeiro porque estou colocando em xeque a sua inteligência, segundo porque você me considera demais um inseto para que eu tenha a audácia de te confrontar, ainda que de forma tão sutil, e terceiro porque a continuação da frase é sempre nociva ou óbvia. É que eu acho imensamente divertido dizer coisas assim: "Talvez você não saiba", "Eu me dou por satisfeito", "Provavelmente você está certo". Parece que estou num daqueles seriados americanos, em que cada coisa que se diz, por mais estúpida que seja, é aclamada com as risadas de um público que jamais aparece. E eu rio. E rio muito de minhas colocações esdrúxulas, inocentes, pueris, tolas e cruéis. Mas provavelmente você está certo (!). Eu devo estar inserido em alguma categoria muito pérfida de seres. A verdade é que eu sinto um prazer quase grotesco em te ver com seu nariz arrogante a me olhar com todo esse desprezo. Porque para que se despreze, é preciso que se compare. E se em sua comparação você se vê melhor, então eu ganhei. Ganhei um lugar privilegiado para o espetáculo que é te ver ensimesmado, orgulhoso de si, contente com os próprios resultados. Então você me devolve. Diz coisas absurdas e também não sabe de onde vem os aplausos. Eu te digo, quer saber? Os aplausos vem de minha platéia. Corre, cospe em meu rosto. Cospe e eu te darei um soco no estômago. Quem sabe assim eu consiga ser digno de sua pena. E se você sente isso por mim, então eu venci. Venci um lugar privilegiado dentro de você. E você ouve os aplausos e não sabe de onde vem. Vem dos lugares que eu conquistei.

12 julho, 2010

"Olhai os lírios do campo"

Hoje pela tarde eu joguei muita coisa pro alto. E saí com a mochila nas costas, carregando lágrimas mais frias e pesadas que a chuva que caía sobre mim. Me molhei toda caminhando rua após rua, e meu preferido vestido quadriculado estava grudado em mim. As pessoas na rua reparavam em meu nariz e olhos avermelhados.
Entrei num ônibus e esqueci de qualquer coisa, das pessoas, da vida. Eu só conseguia chorar. Chorar como só eu sei. E em minha distração uma mulher de blusa amarela se aproximou de mim. Pediu que eu não chorasse, pois meus problemas com o tempo iriam se resolver. E como um revés, passei a escutar dela o que eu costumava dizer às pessoas.
A mulher de blusa amarela fez tudo o que eu teria feito. Disse tudo o que eu teria dito, e com muita simplicidade de alma. Mas eu não disse a ela que já sabia de tudo aquilo. Não disse a ela que conhecia de cor aquelas palavras. Deixei apenas que ela cumprisse sua missão. De ser boa para alguém, de tentar ajudar alguém. Desci do ônibus sem mais lágrimas, para que ela tivesse a certeza de que seu gesto valeu a pena. Mesmo com minha dor, me fez bem ter feito o bem.

08 julho, 2010

Fila da memória

Toda vez que eu atravessava o rio, esperava encontrar uma garrafa que nem as das histórias conhecidas, com uma carta de amor dentro. No fundo eu sabia que jamais poderia encontrar tal garrafa, afinal eu não atravessava o mar, e sim um simples rio. Mas por via das dúvidas eu sempre reparava na superfície da água, no que ela poderia me revelar. E desde pequena eu fui assim. Se tocava a campanhia, ficava olhando o que a porta iria trazer, olhava o telefone, o trajeto de casa ao supermercado para comprar pão, o recreio, os finais de semana. E minha curiosidade era muito grande, mas também muito controlada, porque sempre me diziam que esperar demais pelas coisas fazia com que elas nunca acontecessem.
A única coisa que eu nunca esperei demais foi o arroz ficar pronto. Geralmente me esqueço dele e acabo queimando. Em compensação já esperei por muitas possibilidades, em salas de dentista e filas de banco nessa minha vida. Algumas esperas valeram a pena, me tiraram as cáries e o torto do sorriso. Outras nem tanto. E assim o tempo passou até que me tornei mocinha. Mocinha esperante, mocinha esperança. O problema é que enquanto somos pequenos, matamos o tempo jogando iô-iô ou então aquele jogo da cobrinha dos antigos celulares Nokia, ou ainda pensando em coisas pueris e profundas, sempre dizendo que "naquela" situação a gente faria diferente. Mas daí crescemos, e a recepção da sala do dentista, a fila do banco e a nossa vida nos fazem pensar em por quê a gente não tem feito diferente. Por isso qualquer dia desses ainda vou lançar uma garrafa no rio com uma historinha dentro. E um dia sei que irei revê-la, nem que eu tenha que repeti-la em mil garrafas, porque só aquilo que eu crio eu sei que posso esperar.

19 junho, 2010

Zé Saramago

O jornal dizia que o Saramago havia morrido. Quase tive um ataque epiléptico. Queria só saber que desculpa eles iriam inventar quando o povo da Guatemala ou da Serra Leoa topasse com o Saramago passeando por lá. Ninguém iria dar crédito a mais nenhuma notícia de falecimento, com toda certeza. Além do mais, imaginei que deveria ter um monte de fãs por aí pelo mundo que não acreditasse que ele tivesse morrido. Foi assim com o Elvis, com o Michael Jackson, por que também não seria com ele? A diferença é que o Elvis e o Michael morreram de verdade. O Zé não. A gente conversava praticamente todos os dias, e ele nunca me falou de doença nenhuma. Aí alguém poderia pensar: “mas ele pode ter dado alguma pista sobre isso em um de seus romances”. Já vi autores fazerem isso. Mas se fosse o caso do Zé, creio que não descobriria um doente. Talvez descobrisse o próprio Lúcifer. O lado bom desse fuzuê todo é que o nome dele estava correndo pelas bocas, e infelizmente também nas dos intelectuais-de-farinha - nome que o próprio Zé Saramago deu para aqueles fãs fajutos, que bastava dar uma assopradinha neles para que nenhuma idéia ficasse no lugar. Bandimarmotas, me resmungava o Zé.

Nossa amizade começou faz tempo, quando a gente estudava junto. Toda tarde ele ia lá em casa, e eu tentava inutilmente ensinar a ele algumas regras mais elaboradas de pontuação. O Zé nunca foi bom nisso. Passou em português graças às minhas colas. Na prova de redação, lembro que ele decorou exatamente todas as pontuações e as respectivas localizações que eu determinei, num texto que a gente tinha feito previamente. Mesmo quando saímos da escola não nos abandonamos. Cerveja e música eram nossa ceia de fim de semana. As mulheres nem sei. O Saramago as evitava quando eu estava perto, porque só ele fazia sucesso, eu não. Companheiro solidário, enfim. Mais velhos, trocávamos cartas. Ele sempre me mostrando as idéias dos livros que iria escrever, e eu sempre querendo falar do próximo encontro para um uisquezinho. Mas o Zé nunca deixou de me comentar sobre seus livros. O último teve até uma pitada minha. Ele perguntando sobre minha esposa e filhos, eu lhe contei que ela tinha me trocado por um irmão da igreja... Aí eu disse “que ele era um vagabundo roubador de mulheres alheias, que ele não era irmão coisa nenhuma, e ainda que fosse meu irmão, eu deveria ter feito que nem aquela história da bíblia, em que o tal do Caim botou pra lá com o Abel”.

Nossa amizade sempre foi muito discreta. Eu pedi que assim o fosse. Porque eu sabia que se soubessem de nossa proximidade, as mulheres mais farsantes se jogariam em cima de mim para chegar até ele, ou pior que as mulheres... Os intelectuais-de-farinha! Não mesmo. Se ser amigo dele nunca me trouxe nenhum benefício financeiro, também não iria querer uma libertinagem dessas invadindo minha vida. Pois então imagine você que lá estava eu lendo meu jornal, quando me deparei com esta notícia. Vê se pode! O meu Zé... morto! Cheguei em casa soltando fogo pelas ventas, só maquinando no que o Zé iria fazer com aqueles porras que tinham usado o nome dele assim descaradamente. Assim que entrei... O Zé no meu sofá! Me esperando todo classudo, como sempre. Pernas cruzadas, bebericando um uísque. Eu logo esqueci a raiva e fui cumprimentá-lo. Ele parecia meio abatido, mas não quis incomodá-lo com perguntas. Talvez fosse por causa daqueles putos. Comecei pelas trivialidades. Mas meu repertório logo, logo acabou. Que bom, pensei. Eu até poderia me considerar uma pessoa de conteúdo, uma pessoa nada trivial. Uma pessoa-nada-trivial. Esse adjetivo novo que passou pela minha cabeça retardada me fez sorrir involuntariamente, e isso despertou o Zé. Ele levantou-se depressa e disse que precisava ir. Eu perguntei pra onde. Ele disse: eu preciso ir morrer, claro. Eu dei um salto do sofá.

- Está ficando doido, Zé? O que você quer dizer com isso?

Ele já impaciente.

- Eu quero dizer exatamente isso, oras. Que eu pre-ci-so ir morrer.

- Mas... morrer por que? Por causa de uma noticiazinha besta de jornal?

- É que estou escrevendo mais um livro, meu caro amigo. E é sobre esses assuntos...

- Que assuntos?

- Nada... você não pode entender agora, é incompreensível e misterioso demais. Mas para escrever esse livro preciso fazer uma experiência. Preciso fazer com que seja verdade o que as pessoas dizem. Se bem que... pensando nisso agora... não deixa de ser uma boa jogada de marketing pro livro e ao mesmo tempo uma forma de retribuição. Elas também já fizeram com que fosse verdade muito do que eu escrevi.

O Zé me deu um abraço bem forte e saiu depressa. Só fui revê-lo muitos anos depois, em Serra Leoa, lançando o livro que o tornou multimilionário.

17 junho, 2010

Os três horizontes

Eu estava assim perdidoalegre, como quem gosta de se perder só para ir a lugares diferentes. Entretanto o mundo me queria na rota, as pessoas me mostravam a direção, as mulheres desenhavam mapas em seus corpos. Todos me diziam o norte enquanto minh’alma perambulava pelas bússolas, e no barco eu rasgava as velas para não ter que reencontrar os portos. Depois lancei fora toda tripulação, toda carga, até só restar dois pedaços de mim. O capitão que olha o mar, e o náufrago que espera ser visto pelo capitão.
O que fiz? Salvei o náufrago de seu infortúnio. Onde errei? Em ter salvado o náufrago de seu infortúnio. Pois ele tinha fome e frio, e eu não tinha mais mantimentos nem vestes. Ele tinha sede, e por todo lado era água salgada. E ele tinha perguntas, e tinha, e tinha. E como ele insistisse em roubar minha mansidão, o joguei de volta na água com toda a sua fomefriosede, e deixei que naufragasse por suas próprias vontades. Era no fim das contas o que ele queria, pois nenhum náufrago ama a vida no mar, só ama a ilha. Quanto a mim, mesmo tendo perdido uma das metades, decidi por escolher qualquer direção, um porto qualquer, com seu dialeto ruim, sua cultura ruim, seus favores ruins em troca dos meus tesouros.
Mas no barco não havia tesouro. Então fui expulso dali e de muitas outras paradas, e o mar que me era um atalho tornou-se caminho. Que teria sido cruel e solitário, caso uma moça não tivesse vindo junto comigo; e todos os dias ela me naufragava e me trazia de volta ao barco, para me lembrar que mesmo sendo metade eu poderia conhecer os dois lados. E nunca ela me esquecia no mar, sempre me resgatava. E nunca me afastava da proa, e sempre me jogava. Eu capitão guardei meu náufrago na memória, e eu plenitude nunca mais precisei ser pleno para que conseguisse sentir a imensidão do céu sobre mim, a imensidão do mar em mim, a imensidão da moça por mim.

02 junho, 2010

Quando ainda não havia cardápio

Os feirantes lhe disputavam, mas nem precisava. Seu olhar experiente já ia nos melhores tomates, nas melhores cenouras, nas folhas mais verdinhas. Vovó, já vai chegar a hora do lanche? Pastel e caldo de cana, todo santo domingo. Os dois sentados na lanchonete, enquanto as amigas passavam e diziam Como seu neto se parece com você! Daí ela se sentia toda feliz, e seu domingo ficava feliz. Mas naquele dia um senhor sentou na mesa ao lado. E ela desejou muito ter um espelho por perto, para colocar alguns fios de cabelo no lugar. E desejou muito estar usando aquele vestido cor de rosa tão alegre e bonito, e não estar com o esmalte pela metade.
O netinho observava as formigas, o senhor observava o cardápio, e ela observava o senhor. Ele foi uma de suas borboletas na barriga nos tempos de colégio, quando ainda era tão menina e seus cabelos brilhavam muito com o sol. Mas ela não quis ser reconhecida - não naquele dia - e assim foi embora levando o netinho pela mão. Na casa ela viu o espelho, os esmaltes variados em cima do criado mudo, o vestido dobradinho na gaveta. E ela pensou que não sabia mais ser mulher sem aquelas coisas. Sem aquelas coisas ela era simplesmente uma avó.
Domingo seguinte ela voltou com o netinho à lanchonete, toda penteada e cor de rosa, o esmalte combinando com a presilha do cabelo. Sentada de pernas cruzadas, parecendo uma mocinha, somente esperava. Até que o senhor chegou, segurando com uma mão sua senhora, toda penteada e lilás, e com a outra sua netinha, cujas pessoas diziam Como é fofa e engraçadinha! A garotinha observava as formigas, o senhor observava o cardápio, e sua senhora observava alguém com um vestido cor de rosa muito bonito, de olhos baixos, a retirar pequenos pedaços de seu esmalte.

26 maio, 2010

Volta às Aulas


Minhas férias =) =p

As moças eram bem bonitas. Quase feias. Mas quando mexiam no cabelo pareciam quase anjos, muito más. Um pobre jovem me disse que um dia amou a todas elas e quis prová-las todas, sem saber que na cidade não havia gasolina suficiente. Flores suficientes. Cinemas suficientes. Nisso as crianças eram bem comportadas, quase ensandecidas. Uma pobre jovem me disse que um dia quis educá-las e brincá-las todas, sem saber que na cidade não havia amor suficiente. Pirulitos suficientes. Moral suficiente. Na placa de um monumento eu li que o primeiro prostituto da cidade era quase interessante de tão silencioso, e por conhecer as necessidades da maioria dos moradores, tornou-se conselheiro do prefeito. Certa tarde, enquanto eu tomava um sorvete, o mal tentou invadir a cidade com gigantes aranhas assassinas voadoras. A população entrou em pânico! Mas um bom vovô, sentado em sua cadeira de balanço, sorria inconsolável. Ele me disse que não tivesse medo, pois as gigantes aranhas assassinas voadoras logo iriam embora. "A cidade não tem dor suficiente para tanta morte", disse o vovô em toda a sua sabedoria. E antes mesmo que eu terminasse meu sorvete, elas se desanimaram e partiram. Minhas férias foram muito legais.

Fim

19 maio, 2010

Que ninguém nos ouça

Os personagens deste blog se reuniram em assembléia ontem (por causa do fim das histórias que eu dava pra eles). Concluíram que eu realmente merecia uma punição. No mínimo, ser colocada também dentro de uma história. No máximo, ser interditada. Acreditando ser a primeira opção mais educativa e resocializadora, me tiraram do mundo (ir)real para que eu cumprisse minha sentença.
Entro no carro. Pra onde vamos? E assim tudo começa mais uma vez. Lá vamos nós! Semáforo. E aí, já sabe pra onde vamos? Certo, certo, vou seguir em frente. Não sei como estou hoje. Precisando conversar com você, acho. Tenho me sentido muito sozinha. É claro que vi o motociclista... você quer dirigir por mim? Eu sei que você está decepcionado comigo (você nem faz questão de disfarçar mesmo), mas eu queria que essa noite a gente se divertisse, sem peso, sem nada. Chegamos. Você vai descer, não vai? Sim, travei as portas. Todas. Ei, não ligue se não falarem com você, tá? Apenas sorria, mapeie a área e localize alguém interessante. Quer guaraná? Sim, aquele ali é com certeza muito interessante... mas eu sei que ele te incomoda. Vamos procurar outra pessoa. Que pena, não há outra pessoa. Então vem comigo, me contento em ficar com você ali, naquele cantinho. É sempre bom encostar em seu ombro ossudo (risos). Sim, sim, aquela menina parece dissimulada. Ei, já imaginou se um dia... (adoro quando você interrompe meu raciocínio... mas ok, hoje estou topando qualquer coisa). Que idéia genial você teve agora? Sim, seu besta, mesmo sem óculos eu enxergo as estrelas, só que elas brilham menos. Verdade, nunca mais tinha vindo aqui. O mar está calmo né? Se não fosse morrer de frio depois, arriscaria um mergulho. Nem pensar... eu vou deixar seu casaco todo encharcado! Vamos ficar assim juntinhos mesmo. Se eu pudesse, ficaria deitada aqui com você pra sempre. Ainda bem que amanhã ainda é domingo, né? E agora me abrace bem forte... Eu nem deveria dizer isso, para que "certas" pessoas não ficassem convencidas... mas você é o ego mais doce que alguém poderia ter.

17 maio, 2010

Por que raios eu não fugi dessa igreja?

Minha maquiagem sempre fica meio mal feita. Logo, nunca serei uma mulher plena. E também raramente me sinto bem usando saltos. E me falta a paciência para depilar a perna com cera. É que não me lembro de terem me pedido pra ser mulher. Só me ensaiaram a beleza, me disseram a feiúra, me fizeram a tristeza. E, no mais, eu sempre estive confortável sendo menina, aspirante a tola, tola a aspirante. A mulher em mim só aparece de vez em quando. Pra pedir dinheiro, pra pedir um pouco de amor.
Bem... eu não tenho dinheiro, eu não tenho amor. Sugeri que ela pedisse o divórcio e me deixasse em paz. Ela disse que só iria se dividíssemos os bens, que era seu direito, que metade de mim pertencia a ela. Quer que eu vá à falência, mulher? Então não nos divorciamos. Ela blablablablando que quer porque quer uma casa mais organizada, as roupas mais bonitas, as decisões mais firmes. Eu querendo meus livros, minha rede, meu futebol. Cerveja não, que dá barriga.

13 maio, 2010

E depois disso ela jogou fora o crachá

E porque o jeito dela parecia o de uma secretária, ele lhe falou sobre clipes e pastas de arquivo. Acabou que o encontro foi mais desconcertante que homem tentando se equilibrar em salto alto (é que ela defendia o anarquismo). Então ele deixou isso pra lá, porque quanto mais se sentia só, mais tinha medo das pessoas. Resolveu que bom mesmo era sair por aí com um destino triste e poético no bolso, e que por favor esse destino acontecesse. Para que ele pudesse ser e pensar diferente de qualquer um; e não chorar, como qualquer um.

E porque um dia ele amou uma namoradinha - que se tornava odiosa ao menos uma vez por mês - ele quis amá-la ainda mais nestes dias para provar não sei o quê, violentando sua própria natureza - que se tornava odiosa ao menos uma vez por mês. Mas ao menos ele tinha sua quota de amor mal resolvido, sua leve e viciante crise existencial e a conhecida resignação em seu estado mais puro. E porque tudo estava em seu lugar ele quis ter o equilíbrio da ponderação da serenidade da sabedoria; e quis um dia dormir pra nunca mais acordar (o mesmo).

E foi assim que ele pensou sobre todas as coisas deste mundo, e nisso se empenhou de tal maneira que acabou esquecendo do que nunca lembrou. Daí ele reencontrou a anarquista, só pra lhe falar sobre Marx e Hitler. Mas parecia que o homem ainda estava lá, brigando com o salto alto, a lhe pisar o orgulho supremo. Ah... Se ao menos ele observasse o crachá... entenderia que ela era sim uma secretária, e por ele se apaixonaria caso ganhasse no aniversário um perfurador ou um porta canetas.


03 maio, 2010

Ignácio

Vulgo Pipa. Uma figura academicamente irrelevante, uma estrutura esteticamente indesejável, um amigo facilmente esquecível de telefonar. E não só isso. Quem se desse ao trabalho de observá-lo um pouco mais poderia descobrir um familiar desinfluente, um talento duvidoso, um ser de raciocínio tipicamente generalizável.

Era irremediavelmente popular. O popular descartável, claro. Que servia para o riso, para o sarcasmo, para ocupar o tempo quando não havia assunto mais importante. E logo, logo Pipa era esquecido. Precisava ser esquecido. Mas não havia ninguém que deitasse na cama desejando magoá-lo no dia seguinte. E não havia ninguém que dele esperasse uma resposta. E não havia ninguém que dele cobrasse alguma melhora.

Ainda assim ninguém o invejava. Porque era melhor ser melhor. Porque tudo parecia ter mais sentido, tudo parecia tão mais bonito quando as pessoas sorriam... Então, no dia em que os céus se fecharam em sangue e a dor e as lágrimas inundaram o mundo por quarenta dias e quarenta noites, Pipa entrou em seu barco junto com seus amigos imaginários e ficou observando. Também ninguém lembrou de lhe pedir socorro. Mesmo o barco estando tão perto.

13 abril, 2010

Não somos tão fracos

Eu e João tínhamos uma casa. Ali mulher não mandava, não opinava, não colocava jarros cor de rosa. Ali a cerveja saía pelas torneiras, a toalha ficava em cima da cama, o volume do som nunca incomodava. Era o nosso humilde reino, o nosso habitat, o clube dos brothers. Mas eis que veio uma fulaninha, cuja terra natal só poderia ser o quinto dos infernos, e achou por bem enlaçar meu pobre amigo - com suas pernas, com seu requebrado, com seu maravilhoso pudim de leite que-só-ela-sabia-fazer.
Eu disse: "João, acorda cara. Essa mulher vai te arrancar a paz de espírito". Foi o meu primeiro assopro. E adiantou? Pouco tempo depois flagrei João perguntando o que ela preferia (se ir ao cinema ou ver um show de Sandy e Júnior). Nesse dia eu lhe esbofeteei a cara. Foi meu segundo assopro. Num terceiro momento, o fatal, João veio com essa: "Pô, acho que toalha em cima da cama não é legal". Aquilo era um sutil sintoma de doença muito grave. Foi demais pra mim. E no terceiro assopro eu fui embora.
João casou com a fulaninha, teve algumas aventuras com beltraninha, teve filhos. Eu? Eu implantei novos reinos, ri, bebi e vivi, conheci outros otários que tiveram o mesmo fim que ele. Ele... eu sinto demais a falta dele. Meu primeiro Brother. O parceiro inseparável. Eu queria conhecer os filhos dele, responder a alguma pergunta que quem sabe eles quisessem muito saber. Eu queria ensinar a fazer aviãozinho, a driblar os lanterninhas do cinema. Eu queria provar de novo aquele maldito pudim de leite. Eu queria um reino sem a tirania da minha liberdade.

07 abril, 2010

Eu era uma baratinha que um dia levou um banho de detefon, e desde então sempre saía de um lado para outro, totalmente desnorteada, querendo pelo-amor-de-Deus encontrar um buraquinho para me esconder antes que alguma sandália acertasse em cheio.
Mas não é que de repente eu tive sorte? Lá estava o buraquinho salvador da Pátria, um buraquinho em que eu cabia toda confortável, praticamente uma cama com lençol vendo filme em dia de chuva. E o buraquinho me protegeu quando todos os saltos e botas e tamancos queriam me fazer a estrela da festa. Ufa! Respirei aliviada. Enfim eu tinha um amigo, um abrigo, um portozinho (in)seguro.
Como eu poderia agradecer? Não poderia. Lembrarei pra sempre das primeiras vezes em que a gente disse: "Sério? Eu também penso sobre isso!". Desde então o buraquinho foi crescendo, crescendo, até ser maior que qualquer coisa, maior que o tamanco mais pesado. Hoje eu sou uma baratinha que tira onda e sai correndo.
Pro melhor dos buraquinhos.

06 abril, 2010

Eu não tenho um amor, eu tenho um abraço

Hoje de manhã, enquanto cozinhava o arroz para o almoço, eu repeti entre lágrimas inúmeras vezes que você não me ama, que você não é meu amigo, que você nunca gostou de mim, que você não me ama, que você não é meu amigo, que você nunca gostou de mim.

Meus sonhos nunca foram seus sonhos.

Minha dor nunca foi sua dor.
Minha saudade nunca foi surpreendida.
Mas você me abraça.
Para que seus sonhos não sejam só seus.
Para que sua dor seja dividida.
Para que nunca mais você precise lembrar do que é sentir saudade.

17 março, 2010

Monte das Oliveiras

Se você soubesse que seu melhor amigo morreria em algumas horas, o que você faria?
É madrugada, você sabe que virão buscá-lo, você sente a angústia que exala de sua alma, você o vê caminhar de um lado para o outro a pedir: Pai, se possível for, passa de mim este cálice.
Como não se inquietaria esse nosso coração ao ver alguém que tanto amamos sentir dores de parto?
Mas, no Monte das Oliveiras, os apóstolos dormiram. Dormiram os mesmos apóstolos que ouviram belas histórias, que aprenderam lições, que cultivaram a amizade. E eu posso ver o momento em que Jesus pediu para que eles o ajudassem. Mas o sono - que não era qualquer sono - era mais forte que a vontade deles.
Jesus deve ter sentido a maior solidão do mundo ali. Sem o Pai. Sem amigos. Sem ninguém. E a morte à espera. E sinto um peso, e uma leveza triste, ao entender o que se passou em seu coração ao ver o sono profundo em que todos haviam mergulhado. O sentimento de abandono. De rejeição.
Hoje eu saio pelas ruas, eu exalo angústia, e tenho o cálice tão doloroso de cada manhã, mas eu só vejo sono ao meu redor. E ninguém ao meu lado. Numa solidão maior do mundo. E abandono e rejeição. O meu Monte das Oliveiras. E mesmo assim, de des-espero em des-espero, como a morte eu também espero. Que alguém não durma. Que alguém me acorde.

26 fevereiro, 2010

Aos meus amigos descomuns

Uma coisa interessante é quando a gente fica de saco cheio de falar sobre coisas sérias. Já não bastam os nossos pensamentos? Me diga, pelo amor de Deus: qual o real motivo de andar prum lado e pro outro com a testa franzida? Hein? Hein? O que eu sei é que estamos chegando naquela fase de ficarmos parecidos com adultos. Ou ao menos ao ponto de nossa família acreditar nisso. Mas eu penso assim: que seriedade não deveria ser um estilo de vida. Seriedade deveria ser um coringa, uma carta na manga que a gente só joga naqueles momentos decisivos – o momento de se impor. E se alguém é maluco o suficiente pra querer se impor o tempo todo, ocorre justamente o contrário: ninguém consegue levar essa pessoa a sério. Tou dizendo isso porque nas rodas entre amigos fazemos parte de um treinamento tácito. Somos avaliados em tempo integral, somos postos à prova, e, como se não bastasse, somos envolvidos por quase todo tipo de sentimento, como se um raio caísse em nossa cabeça a cada instante, dando choques, chacoalhando, mostrando que nada fica do jeito que está por muito tempo. Existe uma pressão silenciosa, existe um apoio expresso dos nossos amigos, existe o blefe de nossos inimigos, e entre uma coisa e outra ficamos nós, quase adultos quase doidos pra experimentar muitas coisas dessa vida, e aí fazemos cara de sérios, e ficamos pesados aos poucos (mas tendo muita vontade de sermos leves), e ficamos sorridentes (mas sempre vigilantes). Enfim, nem eu mesma sei o que estou dizendo, eu apenas queria dizer. Dizer que passar por tudo isso é um des/prazer (o que importa?), e que as pequenas ciladas de nosso coração vão nos traumatizar ad infinitum, mas ainda assim minha esperança espera que ainda persistam aqueles que não se confiem só no coringa, nem no plus de saber blefar. Alguns que joguem esse jogo e, nos intervalos, saiam pra beber coca-cola e comer sanduíche como se nossa vida fosse tranqüilidade, e nada nesse jogo fosse importante demais, ou levado a sério demais a ponto de nos decretarmos perdedores.

25 fevereiro, 2010

Lar doce blog

Senti saudade do blog. Uma saudade gostosinha, daquelas que você sabe que pode matar na hora que bem entender. Só que mesmo podendo, não matei. Deixei que se prolongasse por bons meses, até que eu ficasse farta de estórias, e sensações, e energias, e descobertas, como alguém que chega de viagem com a mala cheia de presentes e de fotografias e de vivências. Mas minha mala tá uma bagunça - cheia de entulho e cheia de coisas bonitas.
Depois de tanto tempo a viagem cessa, e eu chego em casa, eu entro em meu quarto. Deito na cama e sei que tenho que arrumar a bendita mala. Colocar tudo dentro do armário, colocar as fotos no álbum, colocar as lembranças bem lá dentro de mim. É muita coisa, é muito trabalho. É uma vontade de viajar de novo, é uma necessidade de ficar, é um desejo de partir, é um sonho de nunca precisar ter de ir. E toda vez que eu quis demais uma coisa, acontecia a outra. E se o relógio fazia tic eu queria escutar o tac. E se me diziam bom dia eu queria responder boa noite. E se me falavam em amor eu procurava a solidão. E se eu sorria até por uma flor, vinham os espinhos e me diziam: Não.
Então eu fui só devaneio, e atitude, e surpresa. Aprendi o que aprendo sempre: que preciso aprender. Errei, porque eu erro sempre: e ainda assim preciso não entender. Pois sei que no dia em que eu entender, eu vou achar justo. E eu quero é que nada disso seja justo, e que para mim tudo seja para sempre um grande absurdo. Então tou de volta, matando a saudade de pensar de um jeito bom, fresco, cheiroso, delicado. Tou com vontade de ser otimista, de ser clichê, de mandar o cinismo pros infernos, de fazer do meu passado um travesseiro agrícola, que toda noite fala ao meu ouvido: se você quer as acerolas, o que faz semeando tantas laranjas?