Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





19 junho, 2010

Zé Saramago

O jornal dizia que o Saramago havia morrido. Quase tive um ataque epiléptico. Queria só saber que desculpa eles iriam inventar quando o povo da Guatemala ou da Serra Leoa topasse com o Saramago passeando por lá. Ninguém iria dar crédito a mais nenhuma notícia de falecimento, com toda certeza. Além do mais, imaginei que deveria ter um monte de fãs por aí pelo mundo que não acreditasse que ele tivesse morrido. Foi assim com o Elvis, com o Michael Jackson, por que também não seria com ele? A diferença é que o Elvis e o Michael morreram de verdade. O Zé não. A gente conversava praticamente todos os dias, e ele nunca me falou de doença nenhuma. Aí alguém poderia pensar: “mas ele pode ter dado alguma pista sobre isso em um de seus romances”. Já vi autores fazerem isso. Mas se fosse o caso do Zé, creio que não descobriria um doente. Talvez descobrisse o próprio Lúcifer. O lado bom desse fuzuê todo é que o nome dele estava correndo pelas bocas, e infelizmente também nas dos intelectuais-de-farinha - nome que o próprio Zé Saramago deu para aqueles fãs fajutos, que bastava dar uma assopradinha neles para que nenhuma idéia ficasse no lugar. Bandimarmotas, me resmungava o Zé.

Nossa amizade começou faz tempo, quando a gente estudava junto. Toda tarde ele ia lá em casa, e eu tentava inutilmente ensinar a ele algumas regras mais elaboradas de pontuação. O Zé nunca foi bom nisso. Passou em português graças às minhas colas. Na prova de redação, lembro que ele decorou exatamente todas as pontuações e as respectivas localizações que eu determinei, num texto que a gente tinha feito previamente. Mesmo quando saímos da escola não nos abandonamos. Cerveja e música eram nossa ceia de fim de semana. As mulheres nem sei. O Saramago as evitava quando eu estava perto, porque só ele fazia sucesso, eu não. Companheiro solidário, enfim. Mais velhos, trocávamos cartas. Ele sempre me mostrando as idéias dos livros que iria escrever, e eu sempre querendo falar do próximo encontro para um uisquezinho. Mas o Zé nunca deixou de me comentar sobre seus livros. O último teve até uma pitada minha. Ele perguntando sobre minha esposa e filhos, eu lhe contei que ela tinha me trocado por um irmão da igreja... Aí eu disse “que ele era um vagabundo roubador de mulheres alheias, que ele não era irmão coisa nenhuma, e ainda que fosse meu irmão, eu deveria ter feito que nem aquela história da bíblia, em que o tal do Caim botou pra lá com o Abel”.

Nossa amizade sempre foi muito discreta. Eu pedi que assim o fosse. Porque eu sabia que se soubessem de nossa proximidade, as mulheres mais farsantes se jogariam em cima de mim para chegar até ele, ou pior que as mulheres... Os intelectuais-de-farinha! Não mesmo. Se ser amigo dele nunca me trouxe nenhum benefício financeiro, também não iria querer uma libertinagem dessas invadindo minha vida. Pois então imagine você que lá estava eu lendo meu jornal, quando me deparei com esta notícia. Vê se pode! O meu Zé... morto! Cheguei em casa soltando fogo pelas ventas, só maquinando no que o Zé iria fazer com aqueles porras que tinham usado o nome dele assim descaradamente. Assim que entrei... O Zé no meu sofá! Me esperando todo classudo, como sempre. Pernas cruzadas, bebericando um uísque. Eu logo esqueci a raiva e fui cumprimentá-lo. Ele parecia meio abatido, mas não quis incomodá-lo com perguntas. Talvez fosse por causa daqueles putos. Comecei pelas trivialidades. Mas meu repertório logo, logo acabou. Que bom, pensei. Eu até poderia me considerar uma pessoa de conteúdo, uma pessoa nada trivial. Uma pessoa-nada-trivial. Esse adjetivo novo que passou pela minha cabeça retardada me fez sorrir involuntariamente, e isso despertou o Zé. Ele levantou-se depressa e disse que precisava ir. Eu perguntei pra onde. Ele disse: eu preciso ir morrer, claro. Eu dei um salto do sofá.

- Está ficando doido, Zé? O que você quer dizer com isso?

Ele já impaciente.

- Eu quero dizer exatamente isso, oras. Que eu pre-ci-so ir morrer.

- Mas... morrer por que? Por causa de uma noticiazinha besta de jornal?

- É que estou escrevendo mais um livro, meu caro amigo. E é sobre esses assuntos...

- Que assuntos?

- Nada... você não pode entender agora, é incompreensível e misterioso demais. Mas para escrever esse livro preciso fazer uma experiência. Preciso fazer com que seja verdade o que as pessoas dizem. Se bem que... pensando nisso agora... não deixa de ser uma boa jogada de marketing pro livro e ao mesmo tempo uma forma de retribuição. Elas também já fizeram com que fosse verdade muito do que eu escrevi.

O Zé me deu um abraço bem forte e saiu depressa. Só fui revê-lo muitos anos depois, em Serra Leoa, lançando o livro que o tornou multimilionário.

17 junho, 2010

Os três horizontes

Eu estava assim perdidoalegre, como quem gosta de se perder só para ir a lugares diferentes. Entretanto o mundo me queria na rota, as pessoas me mostravam a direção, as mulheres desenhavam mapas em seus corpos. Todos me diziam o norte enquanto minh’alma perambulava pelas bússolas, e no barco eu rasgava as velas para não ter que reencontrar os portos. Depois lancei fora toda tripulação, toda carga, até só restar dois pedaços de mim. O capitão que olha o mar, e o náufrago que espera ser visto pelo capitão.
O que fiz? Salvei o náufrago de seu infortúnio. Onde errei? Em ter salvado o náufrago de seu infortúnio. Pois ele tinha fome e frio, e eu não tinha mais mantimentos nem vestes. Ele tinha sede, e por todo lado era água salgada. E ele tinha perguntas, e tinha, e tinha. E como ele insistisse em roubar minha mansidão, o joguei de volta na água com toda a sua fomefriosede, e deixei que naufragasse por suas próprias vontades. Era no fim das contas o que ele queria, pois nenhum náufrago ama a vida no mar, só ama a ilha. Quanto a mim, mesmo tendo perdido uma das metades, decidi por escolher qualquer direção, um porto qualquer, com seu dialeto ruim, sua cultura ruim, seus favores ruins em troca dos meus tesouros.
Mas no barco não havia tesouro. Então fui expulso dali e de muitas outras paradas, e o mar que me era um atalho tornou-se caminho. Que teria sido cruel e solitário, caso uma moça não tivesse vindo junto comigo; e todos os dias ela me naufragava e me trazia de volta ao barco, para me lembrar que mesmo sendo metade eu poderia conhecer os dois lados. E nunca ela me esquecia no mar, sempre me resgatava. E nunca me afastava da proa, e sempre me jogava. Eu capitão guardei meu náufrago na memória, e eu plenitude nunca mais precisei ser pleno para que conseguisse sentir a imensidão do céu sobre mim, a imensidão do mar em mim, a imensidão da moça por mim.

02 junho, 2010

Quando ainda não havia cardápio

Os feirantes lhe disputavam, mas nem precisava. Seu olhar experiente já ia nos melhores tomates, nas melhores cenouras, nas folhas mais verdinhas. Vovó, já vai chegar a hora do lanche? Pastel e caldo de cana, todo santo domingo. Os dois sentados na lanchonete, enquanto as amigas passavam e diziam Como seu neto se parece com você! Daí ela se sentia toda feliz, e seu domingo ficava feliz. Mas naquele dia um senhor sentou na mesa ao lado. E ela desejou muito ter um espelho por perto, para colocar alguns fios de cabelo no lugar. E desejou muito estar usando aquele vestido cor de rosa tão alegre e bonito, e não estar com o esmalte pela metade.
O netinho observava as formigas, o senhor observava o cardápio, e ela observava o senhor. Ele foi uma de suas borboletas na barriga nos tempos de colégio, quando ainda era tão menina e seus cabelos brilhavam muito com o sol. Mas ela não quis ser reconhecida - não naquele dia - e assim foi embora levando o netinho pela mão. Na casa ela viu o espelho, os esmaltes variados em cima do criado mudo, o vestido dobradinho na gaveta. E ela pensou que não sabia mais ser mulher sem aquelas coisas. Sem aquelas coisas ela era simplesmente uma avó.
Domingo seguinte ela voltou com o netinho à lanchonete, toda penteada e cor de rosa, o esmalte combinando com a presilha do cabelo. Sentada de pernas cruzadas, parecendo uma mocinha, somente esperava. Até que o senhor chegou, segurando com uma mão sua senhora, toda penteada e lilás, e com a outra sua netinha, cujas pessoas diziam Como é fofa e engraçadinha! A garotinha observava as formigas, o senhor observava o cardápio, e sua senhora observava alguém com um vestido cor de rosa muito bonito, de olhos baixos, a retirar pequenos pedaços de seu esmalte.