Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





28 julho, 2010

Scarface

Sentada na cadeira que trazia aquela coisinha de tranquilidade. Então você me pergunta: Aonde você estava? Por que você estava sentada nessa cadeira? Não, seu bobinho. Não me pergunte essas perguntas obrigatoriamente perguntáveis. Me pergunte qual a cor do sapato que eu estava usando, me pergunte se lá tinha janelas ou para que lugar eu olhava mais. Me faça entender o quanto você tem vontade de me imaginar, de ver o que não é aparente. Mas voltando. Essa cadeira, na qual eu estava sentada, era uma espécie de divã. Bem confortavelzinho. Diante de mim havia uma pessoa. Que nunca tinha me visto antes, nunca tinha pensado em mim e nunca tinha se perguntado por que raios eu estralava os dedos com tanta frequência. E diante dessa pessoa, que por causa de um diploma achava que poderia me ajudar com todos os meus problemas, eu descarreguei uma história. Espero que você não me pergunte qual história. Eu não posso contar, prometo. Se eu contar, nascerá uma verruga no dedo do meu pé. Além disso, seria mais legal se você me perguntasse sobre o que mais me chamou a atenção naquela sala. E isso eu posso te dizer: foi uma pasta classificadora. Mas voltando. Diante dessa pessoa eu narrei a história que eu sabia sobre mim. Sim, pois existe também a história sobre mim que eu ainda não sei, e que só os anos vão me trazer. E da história que eu conhecia eu não escondi nada, exceto uma ou outra sensação mais secreta. Coisa pouca. Enquanto isso, a pessoa fazia uma cara de "sua história não me surpreende, mas mesmo assim estou atenta". Ótimo, pensei. Adoro as falsidades e o código de ética das profissões. Poxa, minha história levou um tempão pra ser contada. Tinha muitas sinuosidades. Quando terminei o céu já estava bem escurinho, e eu só conseguia pensar em como ia voltar pra casa. Resultado: não consegui me concentrar nas observações que a pessoa me fazia. Resultado do resultado: tudo foi inútil. Deve ter sido por isso que saí de lá muito etérea. Eu sempre amei as doces inutilezas. Elas são tão puras, tão desprovidas da necessidade de um acontecimento futuro... Achei melhor caminhar um bom bocado depois dali, pro vento secar o tecido da minha alma lavada, com aquele cheirinho bom de amaciante.

19 julho, 2010

Provocação

"Talvez você não saiba, mas". Sim, eu sei como você me acha esnobe quando eu digo essa frase. Primeiro porque estou colocando em xeque a sua inteligência, segundo porque você me considera demais um inseto para que eu tenha a audácia de te confrontar, ainda que de forma tão sutil, e terceiro porque a continuação da frase é sempre nociva ou óbvia. É que eu acho imensamente divertido dizer coisas assim: "Talvez você não saiba", "Eu me dou por satisfeito", "Provavelmente você está certo". Parece que estou num daqueles seriados americanos, em que cada coisa que se diz, por mais estúpida que seja, é aclamada com as risadas de um público que jamais aparece. E eu rio. E rio muito de minhas colocações esdrúxulas, inocentes, pueris, tolas e cruéis. Mas provavelmente você está certo (!). Eu devo estar inserido em alguma categoria muito pérfida de seres. A verdade é que eu sinto um prazer quase grotesco em te ver com seu nariz arrogante a me olhar com todo esse desprezo. Porque para que se despreze, é preciso que se compare. E se em sua comparação você se vê melhor, então eu ganhei. Ganhei um lugar privilegiado para o espetáculo que é te ver ensimesmado, orgulhoso de si, contente com os próprios resultados. Então você me devolve. Diz coisas absurdas e também não sabe de onde vem os aplausos. Eu te digo, quer saber? Os aplausos vem de minha platéia. Corre, cospe em meu rosto. Cospe e eu te darei um soco no estômago. Quem sabe assim eu consiga ser digno de sua pena. E se você sente isso por mim, então eu venci. Venci um lugar privilegiado dentro de você. E você ouve os aplausos e não sabe de onde vem. Vem dos lugares que eu conquistei.

12 julho, 2010

"Olhai os lírios do campo"

Hoje pela tarde eu joguei muita coisa pro alto. E saí com a mochila nas costas, carregando lágrimas mais frias e pesadas que a chuva que caía sobre mim. Me molhei toda caminhando rua após rua, e meu preferido vestido quadriculado estava grudado em mim. As pessoas na rua reparavam em meu nariz e olhos avermelhados.
Entrei num ônibus e esqueci de qualquer coisa, das pessoas, da vida. Eu só conseguia chorar. Chorar como só eu sei. E em minha distração uma mulher de blusa amarela se aproximou de mim. Pediu que eu não chorasse, pois meus problemas com o tempo iriam se resolver. E como um revés, passei a escutar dela o que eu costumava dizer às pessoas.
A mulher de blusa amarela fez tudo o que eu teria feito. Disse tudo o que eu teria dito, e com muita simplicidade de alma. Mas eu não disse a ela que já sabia de tudo aquilo. Não disse a ela que conhecia de cor aquelas palavras. Deixei apenas que ela cumprisse sua missão. De ser boa para alguém, de tentar ajudar alguém. Desci do ônibus sem mais lágrimas, para que ela tivesse a certeza de que seu gesto valeu a pena. Mesmo com minha dor, me fez bem ter feito o bem.

08 julho, 2010

Fila da memória

Toda vez que eu atravessava o rio, esperava encontrar uma garrafa que nem as das histórias conhecidas, com uma carta de amor dentro. No fundo eu sabia que jamais poderia encontrar tal garrafa, afinal eu não atravessava o mar, e sim um simples rio. Mas por via das dúvidas eu sempre reparava na superfície da água, no que ela poderia me revelar. E desde pequena eu fui assim. Se tocava a campanhia, ficava olhando o que a porta iria trazer, olhava o telefone, o trajeto de casa ao supermercado para comprar pão, o recreio, os finais de semana. E minha curiosidade era muito grande, mas também muito controlada, porque sempre me diziam que esperar demais pelas coisas fazia com que elas nunca acontecessem.
A única coisa que eu nunca esperei demais foi o arroz ficar pronto. Geralmente me esqueço dele e acabo queimando. Em compensação já esperei por muitas possibilidades, em salas de dentista e filas de banco nessa minha vida. Algumas esperas valeram a pena, me tiraram as cáries e o torto do sorriso. Outras nem tanto. E assim o tempo passou até que me tornei mocinha. Mocinha esperante, mocinha esperança. O problema é que enquanto somos pequenos, matamos o tempo jogando iô-iô ou então aquele jogo da cobrinha dos antigos celulares Nokia, ou ainda pensando em coisas pueris e profundas, sempre dizendo que "naquela" situação a gente faria diferente. Mas daí crescemos, e a recepção da sala do dentista, a fila do banco e a nossa vida nos fazem pensar em por quê a gente não tem feito diferente. Por isso qualquer dia desses ainda vou lançar uma garrafa no rio com uma historinha dentro. E um dia sei que irei revê-la, nem que eu tenha que repeti-la em mil garrafas, porque só aquilo que eu crio eu sei que posso esperar.