Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





27 agosto, 2010

E o amor se manifesta...

Eu emburreci. E se você me ama menos por causa disso, é melhor ir descendo do barco. Porque minha burrice vem de querer você, mocinha. De eu tocar em seus cabelos todos os dias e sentir neles cheiro de problema. Problema bom. Já ouviu falar em problema bom? É uma coisa assim, que me consome os dias, me deixa irritadiço, mas no fim das contas quem eu seria se não sentisse essas coisas? Ai de mim se não sentisse essas coisas. Fiz pra você um poeminha. Mas eu acho que nunca vou te entregar, porque acho que ele ficaria menos bonito. O sentimento dado vai ficando menos intenso, como a força das palavras quando são lidas de qualquer maneira. E se bem te conheço, você iria ler de qualquer maneira. Assim, sem pausa, vírgulas, sem a entonação e o sentimentalismo que eu entreguei. Mesmo que eu declamasse não ia adiantar muito, seus ouvidos são péssimos. E você se distrai com facilidade demais. Mas que posso fazer, mocinha? Se em você eu tenho a minha melhor graça, a minha melhor falha, o meu mais nobre erro? Você é maluca assim, contraditória assim, e acha que o tudo é sempre suspeito. Mas dia desses eu emburreci. E se você me quer menos por causa disso, é melhor ir sonhando menos. É melhor ir querendo menos ser feliz. Porque nunca que você vai continuar ao lado de alguém exatamente igual ao dia que você conheceu. As coisas mudam, mocinha. Eu mudei. Mas o meu amor só vai mudando de frasco, de cor de água. Os cheiros dos outros você percebe melhor, porque não está acostumada. Mas o meu é o único que te faz lembrar das coisas necessárias na vida, e faz ferir suas narinas. Você não percebe, mocinha. Você não percebe. Mas eu emburreci. Na madeira, no cimento, na poeira. Um cheiro perdido no ar. E a essência, essa fica ainda mais longe... bem fraquinha bem fraquinha.

23 agosto, 2010

A escola

Olá, bom dia! Vim dar alguns comunicados neste primeiro dia de aula. Pode-se dizer que um grande defeito nessa vida é: fazer de conta que se faz algo com um enorme sacrifício, quando na verdade esse algo que se faz é pela mais deslavada, cínica e espontânea vontade. Crianças, não sejam tolas. Eu bem sei. Sei que nem todas as birras que vocês fazem por causa da salada procedem da pureza de vossos corações de não gostar de verduras. Mas eu entendo que irritar os pais faz parte do jogo de conhecê-los melhor. Entretanto, seja o que for o lanche de hoje e dos demais dias, sintam-se obrigados a comê-los. E por falar em pais, atire a primeira pedra se algum de vocês nunca tentou desvendar-lhes a infidelidade. Mas nisso vocês são mais inteligentes, porque sabem que para perceber a infidelidade do papai não é tão proveitoso observá-lo quanto observar a mamãe. O olhar dela, o jeito que ela prepara o almoço, o jeito que ela respira quando o papai chega em casa depois de um dia de trabalho muito cansativo. Entretanto, nada de depressão na hora da aula. Alunos dispersos, conversadores, cabisbaixos e arruaceiros não merecem o melhor do nosso tratamento.
E uma última e não menos importante coisa: esta é a professora Norma. Será a professora de vocês neste ano. Só que antes tenho algo a falar sobre ela. Um dia, quando a professora Norma fez cara de choro, nos solidarizamos. Óbvio que ela nunca foi um ícone do autocontrole, mas fazer aniversário e não ganhar um buquê de rosas (tipo aqueles que um motoboy entrega, bem na hora do trabalho) era coisa séria demais. Foi triste não vê-la fazer a tão sonhada expressão de surpresa.
O que fizemos? Levamos a professora Norma a um happy hour, pra ver se a gente modificava aquele quadro tão decadente. Onde erramos? Em termos levado a professora Norma a um happy hour, pra ver se a gente modificava aquele quadro tão decadente. Ela escutou um discurso longo e acalorado de um dos nossos, riu de nossas piadas, assoprou velinhas e fez um pedido, no que cumprimos corretamente nosso papel de transparecer curiosidade sobre o tal pedido. Enfim, ela ficou bem. Bem melhor que todos nós.
Não que tenha bebido muito álcool. Apenas se sentiu querida por seus amigos, no que retribuía com largos sorrisos para todos os cantos. E nas trocas de olhares em todos os cantos cada um sabia que cada um se perguntava o por quê de ela se sentir tão bem assim. Ficou um mal estar generalizado. Pareceu-nos que a professora Norma não conhecia o protocolo, mas também não quisemos dá-la por inocente.
No dia seguinte ela chegou toda feliz. Colocou uma foto mais recente no perfil do celular, e insistia com o sorriso insistente. Como não estávamos no melhor de nossos interiores, decidimos em acordo tácito que ela deveria se igualar aos demais. Foi assim que demorei quarenta minutos para levar os cadernos e as provas que ela havia pedido, que Ronaldo não elogiou seu vestido novo, e que Mariana sugeriu de leve que ela fosse a uma academia.

19 agosto, 2010

stratégie

- "É como eu sempre digo. Na hora do aperto, meia lua e soco pra frente."
- Sim, mas nós temos um pequeno dilema. Você quer que eu morra, e do lado de cá eu me preocupo cada vez menos com sua saúde.
- Então não é dilema. É a solução. Poderemos enfim começar uma boa guerra, tenho certeza disso.
- Mas enquanto o sol não nasce e nossos peões não pegam em armas, senta aqui um pouco, meu velho. Vamos conversar um bocadinho só, acender nosso cigarro. Que os parceiros que andam ao meu lado não são boa companhia como você. E nem a minha confiança neles é maior que a confiança que eu tenho em você. Pelo o menos eu sei que você vai me proporcionar uma batalha de homens.
- Eu vou me sentar sim, porque minha coroa para esses anos de luta foi ter aprendido a andar ao seu lado. Fico feliz por você acreditar em mim.
- Tem isqueiro?
- Esse céu está bonito hoje. Talvez as estrelas saibam o que irá ocorrer debaixo delas. Quando você for, irei sentir saudade.
- Mas SE eu for, quem vai andar ao seu lado? Contra quem serão as suas estratégias?
- É... É uma coisa a se pensar. Bem, talvez eu procure novos inimigos, alargue as tendas, aumente os territórios.
- Não sei se é bem assim. Se lembra da Arlene? Aquela mulher quase destrói a tropa inteira do meu lado, e quase põe a baixo o comandante de seu principal batalhão. Depois que a fuzilamos, alguma outra conseguiu tal proeza? Alguma puta fez tanto sucesso entre nossos soldados como ela?
- Tens razão, meu velho. Hoje tudo o que se vê são cartas melancólicas para as famílias, de arrependimentos passados, de juras de saudade. Eles não tem mais com o quê ocupar o tempo vago. Isso tem enfraquecido um pouco as forças. Andam com medo de morrer.
- Pois é, meu caro. A Arlene era nosso melhor suprimento, e acabou morrendo fuzilada. Inimigos novos não significam inimigos melhores. Nem as conquistas, por sua vez.
- Pois é.
- Mas vamos às boas. Anda bem de armas?
- Mas isso é informação que eu não posso te dar, companheiro! Na verdade eu não gosto muito que você me faça essas perguntas, porque por mais escabrosa que seja a minha resposta, nela você sempre encontra a verdade.
- Fazer o quê? Coisa de inimigos.
- Sim, coisa de inimigos.
- Por outro lado é bastante vantajoso que nos conheçamos tão bem, não acha?
- Em alguns aspectos.
- O que você precisa entender é que quanto mais nos enfrentamos e mais adiado fica o fim da guerra, mais chances você perde de vencer. E comigo ocorre o mesmo.
- E como se decidirá a vitória, então?
- Se decidirá com aquele que mais rápido decodificar o outro, e se adiantar aos seus passos.
- Então parece-me que estou em desvantagem.
- Por certo.
- Coisa de inimigos...
- Sim, coisa de inimigos, mas se quiser um anti-conselho, vou te dar. Não perca seu tempo tentando andar à frente dos meus passos. Eu só reajo na medida que você reaje. Logo, os passos calculados precisam ser os seus. Você precisa saber aonde você quer me levar, como num jogo de xadrez. Mas me sinto um idiota te explicando coisas tão óbvias.
- E você não terá elementos surpresa? Você sempre vai agir à sombra dos meus ataques?
- Pior que sim. Meu elemento surpresa na verdade é não ter elemento surpresa, não te oferecer grandes desafios. Te deixar entediado e irritado. Além do que, já percebi que você é mais atingido quando seus planos são esfarelados do que quando eu me antecipo a eles.
- Ainda não acredito que você acabou de me entregar sua estratégia.
- Não faz mal. Se eu soubesse que você faria alguma coisa com essas informações, eu jamais teria te contado. Amanhã talvez você até duvide de que as ouviu. Mas a gente aceita o inimigo que a gente tem, com suas limitações e tudo. Tem outro cigarro?
- É meu velho, parece que o sol chega para nós.
- Foi um prazer esta conversa. Pegue aqui minha mão. Mesmo sabendo que não mais terei inimigo igual à você, trocarei a grandiosidade do sentido que sua existência me proporciona por um tiro, bem no meio de sua testa.
- Também foi um prazer para mim. Mas eu também tenho uma estratégia, e acredito que também posso contá-la.
- E qual seria?
- Você.
- Eu sou sua estratégia? Não compreendo, mas achei interessante. E por quê você está me contando isso?
- Não faz diferença... Se eu soubesse que com isso você me daria a vitória e a paz, eu jamais teria te contado. Talvez até me rendesse.


17 agosto, 2010

Meia noite

Não temerei o terror da noite, nem a seta que voa pelo dia, nem a peste que anda na escuridão, nem a mortandade que assola ao meio-dia. Mil cairão ao meu lado, e dez mil à minha direita, mas eu não serei atingido.*

Mas eu não fui atingido. Pensava que viriam os inimigos à minha procura, com seus dardos inflamados, e suas armadilhas secretas, e a sede. Mas só havia a tranqüilidade das coisas e a violência de mim, procurando os buracos para neles cair e deles fugir.

E agora, José? Não me fale dessas coisas. Por que perde tanto o seu tempo com pensamentos infrutíferos, terrificantes, paralisados no tempo e no espaço por idéias cruéis e secas, vagarosas e limitantes, enganosamente libertárias? Eu já contei a sua história uma vez, e contarei quantas outras for preciso até que você descubra a palavra chave que destranque as portas que você deveria ter aberto. E não abriu. E feche tantas outras que você abriu por pura meninice, porque achava justo ser infeliz.

Eu não sou um velho sábio que tem o mistério de sua vida em minha mão. Eu nunca te direi algo que faça tanto sentido a ponto de aquietar esse seu coração. Eu só tenho a meia noite ao seu lado. O único momento em que estamos juntos com uma sensação de infinitude. Eu te dou o sereno da meia noite, o pensamento na meia noite, o vago, o transporte da mente, o olhar para o canto da parede sem no entanto estar ali, e estar lá.

Não sei se você consegue ver o terror, a seta, a peste, a mortandade. Mas você pode ver tudo o que eles fizeram. Olhe para o seu lado. Olhe para os tantos à sua direita. Olhe para o que te foi atingido. Amarga tão fundo o sabor de guerra acabada, os despojos por todos os lados, a ausência de vida por todos os lados, e você não queria, mas foi o único sobrevivente. Meio morto meio vivo, meio cicatrizado meio ferido, meio vitorioso meio derrotado. E até que você sente inveja dos heróis tombados. Heróis inteiros.

Você está com tanto medo agora, não está? Eu sei o seu medo. Mas o seu espírito é forte, ele vai resistir ao que virá. E depois da resistência, pelo que você lutará? Lute contra você mesmo, e todos os dias e para sempre. Porque a sabedoria não nasce dentro de você. Ela é sacudida e plantada brutalmente com a força de muitas mãos dentro de nosso ser, e só crescerá se encontrar terra boa e favorável; se souber que pode confiar em nós. Mas se você tiver medo da dor da sabedoria, então você realmente não merece viver.


*trecho dos Salmos 91.