Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





30 novembro, 2010

Asas da liberdade

Meu primeiro livro era assim. De idéias curtas e fáceis, e parecia descrever o mundo tal qual ele era. Meu segundo livro por sua vez começou a descrever as idéias curtas e fáceis, e parecia desfazer do mundo. Meu terceiro livro se desfez das descrições, e foi em mim só livre-sensação -não induzida, não corporificada. Meus demais livros foram uma desconstrução e re-arrumação dos anteriores, para me derramar novidade de pensamento, de sentimento, de percepção. E de tanto derrubar parede e levantar parede a casinha ficou bem disforme, com duas portas no banheiro, com a pia no quarto, e na verdade nem quarto havia mais. E a cultura que se fazia em mim era confusa e de pouquíssima efetividade. Como se eu tivesse uma casa disforme, mas não tinha importância porque nem sequer eu morava nela. Na verdade era tudo meio inútil porque sinceramente eu morava mesmo era na rua. E nenhuma casa parecia ser exatamente meu lar. E nenhum lar se parecia com uma casa. Daí abria um livro e ficava debaixo dele se chovia. Me abanava com outro se sol fazia. Fazia de mais outro travesseiro no sono, e arremessava ele se alguém tentava me violentar, e falava sobre algum se me diziam ignorante, e pensava em muitos se minha mente estava entediada, e andava com qualquer um debaixo do braço se me sentia carente de reconhecimento, e decorava algum trecho dele se precisava de dinheiro. E assim os livros me usaram como pássaro que distribui semente, e em cada rua que eu ia, todos sabiam qual era meu endereço: um livro. Uma idéia. Uma disformidade tão eterna, inesgotável, de dizer para depois desdizer, e de saber que ia ser assim até que o universo viesse e nos dissesse pela sua boca de buraco negro que as leis da física nos enganaram direitinho.

Morei em tantos livros e em tantas idéias, e nisso fui às nações da Terra, e aos reis, e aos pecadores, e às guerras, e aos filósofos, e às histórias de amor e de dor, e aos suspenses e ficções. E cada casa me convidava para nela morar, e eu pássaro voava a levar sementes e sementes, sem árvore nem abrigo certo. Só a certeza do abrigo. E a certeza da semente. Um dia farei o trajeto de volta, da primeira casa, aquela com um quadrado, um triângulo, e outro quadrado (menor) para representar a janela. E verei desde as suas fundações até a sua disformidade final, e a minha velhice nas marcas das paredes, no afrouxado no ferrolho, no cansaço do bater de asas, na floresta bonita e descontínua que as sementes criaram. Preciso tanto de um voo livre neste momento. De um voo livre, e de um livro eu me livro - para criar, não reproduzir apenas. E quanto a mim-solidão, só se saberá que nasci, e habitei. O resto ficará dentro dos frutos. E tudo recomeçará uma vez mais, até que o universo venha e acabe com as leis dessa vida.

28 novembro, 2010

O divórcio

O barulho de vinte panelas caindo no chão, uma após a outra, uma após a outra. Agora, as tampas das panelas. Fico com dor de cabeça e vou para o quarto, onde não há cama. Faço as revistas de travesseiro e adormeço no chão. A algazarra dos meus filhos me acorda. Já não querem mais o desenho animado. Então me arrasto até a cozinha (as panelas estão nos armários) e preparo o café-da-manhã. Depois elas correm para a piscina e eu corro para o quarto. E adormeço novamente.
Era divertido quando ele tentava me seduzir. Para uma moça tão cobiçada como eu era, havia que se apelar para a criatividade. E eu sei apreciar uma boa criatividade. A dele era tão viva e sagaz que nem sequer convinha ser comentada. Eu sorria e ficava silenciosa. No começo eu exagerava, o via como a um vassalo, nem sei o que me passava pela cabeça. Mas quando os outros rapazes perceberam que o negócio era sério e foram perdendo o interesse e a insistência, eu comecei a exagerar novamente e a me ver como uma ingrata, e nada que eu fosse ou fizesse seria suficiente para merecer sua companhia.
E o amor, que eu só conhecia de ouvir falar, habitou em mim.
Desencadeou bagunças inimagináveis, e reconfigurou todas as coisas. Ninguém mais veria o que ele viu. A minha existência explodir e expandir como um universo, meus pensamentos em chamas por esfriar. Naqueles dias mais amenos, dias de rotina - e foram tantos esses dias, nós lançávamos os nossos corpos na vida mesmo. O cansaço não trazia mais medo, porque nossas mentes a cada dor se renovava, e assim sempre havia o que se descobrir ou re-admirar. Como Vidas Secas, que a cada vez que leio me acende algo diferente.
E a nossa casa, nossas coisas, nossos filhos. Nossas noites dormindo juntos e nossas manhãs, ele sempre preocupado em levantar antes e escovar os dentes e me trazer um copo d'água. Então como se quer que de repente eu me levante desse chão sem o meu copo d'água? Sem todo aquele cimento que me colocava de pé?
As cortinas, o porta retrato, os filhos. Dou as costas e jogo as panelas de volta pro chão. Não aceito que elas fiquem em melhor estado que eu. Mas calma. Drama sempre me causou desprezo. Então me resigno. Deixo as crianças na casa da avó e vou assinar os papéis. Como ele estava bonito, terno e gravata. Como ela era bonita. Ele não precisava tê-la trazido. Ela segurava firme o braço dele, como que dando apoio. Apoio contra quem?
Não desta vez.
Sento na mesa, tiro o vestido em dois gestos, cruzo as pernas. Estou com uma cinta liga, meia preta, salto preto. Solto o cabelo, minha boca vermelha chega bem junto a ele. E ele vem junto a mim (estou a puxar sua gravata em minha direção). Peço: "Volta pra casa...?" com voz suave e carinhosa.
Eu nunca o decepcionaria.