Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





26 dezembro, 2010

Já anuncias a hora da partida!

Estive em alguns lugares desta cidade que anda assim, muito cheia de luzes...
Luzes e lugares que me inclinaram aos mesmos pensamentos. E sem saber de quase nada, me forcei a raciocinar sobre esse ano vindouro, e o que faria nele. Isso nunca me pareceu uma boa idéia, mas é que eu tinha que me sentir exatamente como eu sou. Igual a todo mundo. Nos planos, nos planos frustrados, nos planos b). Bem, eu não tenho um plano. Não agora. E também não tenho uma meta pela qual eu precise trabalhar num plano.
Me vejo assustadora porque não gosto mais da beleza como antes, a mesma que antecede a feiúra. Pois a beleza-deusa será cruel para suas servas, que nunca serão como ela. E as belezas-servas serão cruéis para tudo o mais, desprezando as pequeninas que lhes forem inferior, adorando somente àquela que não podem alcançar. A beleza tem tudo a ver com esta época. Com as luzes e com os nossos sonhos, que sempre precisam ser belos. Se forem sonhos feios, talvez nos chamem de maus.
Essas luzes me incomodam. Não consigo me concentrar no ano vindouro. Eu só consigo sentir coisas para todo o sempre, e tudo está solto no ar e fora do tempo, porque sinto uma falta e uma saudade absurda de coisas que nunca sequer existiram, e as coisas que já existiram me parecem mais encobertas de névoa que o próprio futuro. O que há neste momento, eis o que não consigo sentir, nem tocar. Nem ao menos compreender com a alma. O que eu tenho agora é o que mais foge de minha vida. E por mais que eu me cerque com arames e cercas, pela aurora já percebo que alguém invadiu o terreno, e comeu as frutas, e pisou no capim e levou consigo algumas flores. E só pelos rastros e marcas no chão eu percebo o que acontece agora, pois é invisível aos olhos. Será o amor?
Talvez tenha nascido uma esperança, um plano pequenino aqui, filho de um sonho que não é belo. Mas é um sonho meu, um sonho eu. Amo esse plano mesmo que mais belo que qualquer outra coisa ele jamais venha a ser. Sinto que ele não se dissipa no ar ante essa luta, nem que irá cuspir em meu rosto se porventura eu esquecê-lo. Um plano que me permite executá-lo e me recebe mesmo do jeito que eu estou, tão suja e pó.

16 dezembro, 2010

Made in China

As esquinas serão oblongas e os pedestres darão saltos Matrixiais para atravessar a rua, para pegar o ônibus que já está indo lá na frente ou ainda para alcançar andares sem precisar de qualquer escada, economizando a energia do elevador. Este será reservado unicamente para os deficientes.

Quando vislumbrei esse outro mundo, sem lixo nas ruas, sem carne bovina nos supermercados e, principalmente, sem qualquer possibilidade de dar tiros (e socos na cara muito menos), eu corri imediatamente à procura do senhor Aldous, meu pai de longa data, e lhe pedi que me explicasse tais coisas, e me permitisse fotografar o planeta para colocar as fotos no meu Álbum dos Planetas. Assim eu finalmente poderia concluir meu TCC galáctico.

Eu também queria capturar o instante exato dessa transição no mundo, e isso só seria possível graças à incrível máquina que eu ganhei de presente no solstício do meu aniversário. Ela possuía os modos 1 ano em 1 segundo e 1 segundo em 1 ano. Sentei na pontinha mais alta do Himalaia e aguardei o tão admirável mundo novo...

(Pausa para contemplar essa imensidão azul do céu, esse mar de gelo que vai por toda a montanha, e aqueles insetinhos que passeiam em cima de uma pedra naquele jardim do Tibete).

...e me perguntei se realmente esse mundo antigo não teria nada de admirável.

Me impacientei porque não via mudança alguma no mundo. Então o cansaço veio e eu fechei os olhos por cinco segundos. Quando os abri, me espantei bastante. Tudo estava vermelho e lilás. O mundo inteiro, desde a cordilheira até os seus confins. Fechei os olhos novamente, por dois segundos dessa vez. Tudo havia ficado verde e cinza. Passei um longo tempo de olhos abertos, até eles ressecarem, mas nada aconteceu. Então acionei a minha máquina e a configurei no modo 1 segundo em 1 ano, para que depois de abrir os olhos eu pudesse ver através dela o que eu não conseguia perceber. Apertei o play e fechei os olhos. Por um único segundo. E assim tudo se transformou uma vez mais, o mundo cheio de cores que eu jamais tinha visto, como o manauen e o lolo, por exemplo. Cores lindíssimas. E enfim pude ver os saltos Matrixiais (as pessoas pareciam pipocas).

Me voltei ansiosamente à máquina, para assistir a todo o processo da visão que eu tinha acabado de presenciar. Mas sentada naquele pedacinho do Himalaia eu assisti ao vídeo por um ano inteiro, e depois por mais outro ano para me certificar, e apenas o que pude ver foram meus olhos apertados e as pálpebras tremendo de mansinho, enquanto algo invisível ocorria à minha volta. E três segundos ou trinta anos que fossem não seriam suficientes para a máquina perceber e acompanhar a força e a rapidez das mudanças que ocorriam toda a vez que eu ficava de olhos bem fechados. Confusa e decepcionada, lancei a máquina Himalaia abaixo.

04 dezembro, 2010

Execução

A goteira caía exatamente entre o encaixe de duas das pedras. E assim a água ia escorrendo como um pequeníssimo rio caudaloso por entre as demais fissuras, fazendo um emaranhado de linhas pelo chão empoeirado e frio. A frieza do chão e das paredes vinha da total ausência de luz do sol ali; a iluminação vinha de um ou outro lampião. Uma masmorra era assim. Parecia ser um mundo inteiro, visto que quem lá estava perdia a capacidade de imaginar qualquer outro mundo, ainda que melhor este mundo pudesse ser. Um mundo pior ninguém ousaria imaginar. Lamentos nunca cessavam, e ganhavam força ao anoitecer – a noite era imposta por um apito –, contrariando e estressando profundamente os guardas. Não é que não houvesse cansaço. Mas a rotatividade de prisioneiros era muito grande, e quando se chegava ao limite da esperança não havia mais necessidade de silenciar, pois já era chegado o momento. Resignados não havia. A violência ali era tão natural como a de tantos outros animais.

Naquele dia – o dia era imposto por um apito e duas batidas nas grades - uma mulher foi feita prisioneira. Pérola lançada aos porcos. Todo o seu grito foi engolido quando se deparou com inúmeros homens perplexos ante sua presença. Pela primeira vez houve silêncio, vergonha e preocupação com uma única e feminina opinião alheia. Ela olhou a cada um, vagarosamente, e seu olhar não se demorava em nenhum. Aos poucos este processo ficou automático, já não se prendia às fisionomias, apenas olhava e olhava enquanto ganhava tempo para si. Ergueu a cabeça e perguntou: “Quem é o próximo a morrer?”. Do mais fundo da escuridão saiu um ratinho, quase cadavérico, com olhos assustados, dentes podres e o respirar desesperado, pronunciando-se. Ela foi calmamente até ele, ainda receosa de que os homens a atacassem. Em paz ela chegou próximo ao mais fundo da escuridão.

Tocou na mão do rapaz, cujos olhos assustados eram também doces e belos, e podia sentir sua energia de vida indo em direção a ele. Enquanto isso os demais homens permaneciam suspensos, sem lamentações e sem discórdias. Porque havia uma mulher. E ela parecia ter uma missão. E então esta mulher tocou na mão de cada um deles, lentamente, e depois disso dançou no meio deles uma dança triste, embalada pela sua voz arcaica. Os homens esqueceram de qualquer vida, da sensualidade da dança e repetiram o refrão, como o som de mantras misturado ao som de muitas águas de um rio. A vida ali assumiu outros corpos, outros espaços que não os mesmos. Não haveria no mundo deles nada melhor depois daquilo. Então fuzilaram um único pensamento. Foi muito sangue esparramado na parede. Foi necessária muita força e violência dentro dos corações; foi muito grito calado. Não haveria no mundo deles disparo maior depois daquilo.