Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





24 janeiro, 2011

Capítulo 3 - Reapresentando Verônica


Porque Julie é um codinome. E todos os seus pensamentos e pueris aventuras escritas na adolescência eram ilustrativos de sua época e seus conceitos absorvidos, que não ultrapassavam, porém, o espaço limítrofe entre a realidade no mundo e a realidade nela.
Julie morreu aos 17 anos, e surgiu Verônica. Diante do espelho ela parecia estar rodeada de muitos anos de idade, de marcas profundas na face, e de cansaço. Como se uma vampira fosse, e com a eternidade convivesse em grande intensidade. Consideravelmente as coisas que lhe aconteciam tinham o poder de obstruir os caminhos certos.
Verônica, aos 45 anos, ainda não era prendada na cozinha, mas sempre preparava uma sopa que, dizia ela, ficaria para a posteridade. A questão da sopa é que ela era insossa, e amargava no finalzinho. E Verônica sabia que por pior que o sabor fosse sua receita se repetiria na mesa dos filhos, das noras, dos netos. Seria a dinastia da sopa. Do sabor não aprimorado nem ao longo dos anos.
A música clássica preenchia a casa de Verônica ao invés dos usuais passarinhos. Qual dos codinomes mais lhe marcara, não saberia dizer. Por qual dela se apaixonaram um dia, não saberia dizer. Uma dama gótica, sedutora, que usava o sacro batom vermelho todos os dias, e os olhos marcados de pintura preta. Era assim a última Verônica, a derradeira persuasão. E então, já verdadeiramente rodeada por anos e histórias, um dia abriu a porta e convidou para sentar em sua sala de estar o sublime amor, o legado, e os antigos erros, face a face. Olhou-os nos olhos, de rosto sem maquiagem naquele dia, provocativa, e com eles esteve em uma conversa de longas horas. Trovejava naquele dia, e os vizinhos tinham medo dos sons que saíam daquela casa.

13 janeiro, 2011

Capítulo 2 - Para não pensar nas coisas

Eu, Julie, acordei com as pancadas na porta. Enchente em São Paulo.
No dia anterior, estava eu na Bombonière com os saquinhos de maconha, a embrulhá-los em quantidades iguais para que não houvesse briga. Arrematei-os com lacinhos coloridos, para deixar bem claro a que trabalho eu tinha me disposto. Mas a polícia resolveu dar uma paradinha por lá para tomar um café, então fui obrigada a socá-los dentro de uma lixeira que estava próxima a mim. Lixeira esta que eu não perdia de vista nem por um segundo. E os policiais a sorrirem e a se demorarem mais do que deveriam, acreditando que o meu nervosismo era de pudor diante do flerte deles. Me pagaram um chocolate quente. Eu aceitei mais para molhar a boca que tinha ficado seca de repente. O saco de lixo na mira do faxineiro. Puxei-o para mim muito brava, explicando baixinho e bem devagar que ele morreria envenenado caso mexesse naquela lixeira. Quase descontei tudo nele. A Bombonière não era mais minha segunda casa, me sentia tensa. Ameacei  o sr. Fred de arrastar a clientela comigo para um concorrente. Meu poder persuasivo sempre foi significante. O Sr. Fred, dono da Bombonière, piscou os olhos num tique nervoso por cinco vezes seguidas e chamou os policiais para uma conversa amena na mesa junto ao vidro da janela. Foi o tempo de pegar os pacotes e jogá-los para a parte de dentro do balcão, numa perícia miraculosa. Por pouco não fui aplaudida pelos clientes, aflitos pelos seus pacotinhos em perigo. Tiveram de conter seus Vivas e urros de alegria. Os policiais ficaram surpresos com o clima feliz que se instaurara no ambiente. Pensei que por isso pretendiam voltar mais vezes. Pobre sr. Fred, sem mim sua Bombonière não seria mais a mesma. Não por um bom tempo. Tive que ir para a aula, os pacotinhos pela última vez sob os auspícios da querida Bombonière.
Enchente em São Paulo. Enchente em São Paulo! Acordei de sobressalto e minha camisolinha rosa praticamente pulou para fora de mim, vesti o que vi pela frente e fui correndo, ou nadando, até a praça da Bombonière – tomada pela enchente. Meu coração deu cambalhotas doloridas no peito, e eu maldisse aqueles policiais por mais de meio milhão de vezes. E a natureza por outro meio milhão. Estava possessa, louca e desvairada. Os saquinhos todos encharcados, o sr. Fred com olhar de peixe morto. Eu não tinha condição alguma de lamentar por ele. Fui para casa inconsolável, fracassada e irada. São Paulo que se afogue, pensei. Desliguei o telefone e deixei-me ficar na minha bendita cama que eu nunca arrumava.

10 janeiro, 2011

Capítulo 1 - Apresentando Julie


        Sophia Copolla iluminou algo esquecido.
       Em minha grande cama florida eu me esparramava toda, de camisolinha rosa. Era uma tarde muito quente e misturada com aquele tipo de dia que vai embora e nem cinzas deixa. Pensava sobre o filme Encontros e Desencontros. Num primeiro momento após tê-lo assistido, decidi que não havia gostado. Mas com o refinado das reflexões comecei a mudar. Não é que eu não tivesse gostado do enredo, mas eu não tinha gostado de seu final. Só após muitos pensamentos é que fui levada de volta à emoção que senti com aquela despedida de Charlotte e Bob e às quase lágrimas que chegaram aos meus olhos. Percebi uma vez mais o quanto as metáforas de filmes tristes caem tão bem em minha vida, vasta de situações cinematográficas.
     Em minha grande cama florida eu me esparramava toda, de camisolinha rosa. E assim eu olhava para o teto, com medo de pensar em coisas sérias. Porque quanto mais tempo eu me concentrava numa idéia, mais sua solidez se perdia e dissipava. Como se a cada segundo que eu observasse alguma coisa, eu fosse me aprofundando nela até que chegasse aos átomos e muito mais além, e no fim só visse o nada, o vazio, o vácuo. Ser diferente a cada querer de coisas diferentes. Mudar de opinião a cada vez que eu refletia nessa opinião. Ou seja: eu seria e serei para sempre um ser condenado a mudar meu ponto de vista sobre grandes e pequenas causas. A depender de minha conveniência? Não sei.
       Pensava no filme Encontros e Desencontros, e quanto mais eu pensava mais minha solidez se perdia e dissipava. Como se eu fosse alguma coisa e a cada vez que fosse me aprofundando só visse o nada, o vazio, o vácuo. Existe um rapaz apaixonado por mim, e quero fazer com que ele se desapaixone. Com que pare de me olhar tanto e de pensar mil frases originais para me convencer de alguma coisa possivelmente inútil. Por hora, nada que eu faça o desvia de seus sentimentos, e também não tenho me dedicado muito a isso. Poderia bancar a megera, a idiota, a fútil, só para assustá-lo. Mas não posso me expor porque no fundo eu realmente sou todas essas coisas; porém não dou a ele o direito de enxergar isso, nem que seja para o meu próprio bem, para a minha própria paz de me livrar dele. Comprei a opção de que é melhor ele ter uma boa imagem a meu respeito, ao invés de libertá-lo de tudo isso com um só assopro de verdade.
      Num primeiro momento decidi que não havia gostado dele, mas com o refinado das reflexões comecei a me acovardar e a pensar que a opção que eu tinha comprado trazia uma coisa válida, a inércia. E pensava no filme Encontros e Desencontros, uma coisa possivelmente inútil, não sei se inútil por causa de minha conveniência. Queria me desapaixonar pela matéria e pelos seus átomos, pelo seu vazio. Poderia parar de olhar, e de ficar pensando em mil idéias tentando me convencer de que são originais. Mas no fundo eu não quero enxergar isso, nem que seja para o meu próprio bem. Comprei a opção de que um só assopro de verdade é suficiente para a minha própria paz.

08 janeiro, 2011

sambamor


Bem que quiseram enganar a tristeza, e dizer a ela que não pode ser. Mas o samba morreu na noite no copo na boca no corpo daquele que entoava o samba mais triste e sentimental que aquela rua poderia ouvir. Com seu violão abraçado a ele, e sua camisa de botão com um botão a menos e outro botão aberto, mostrando uma boa parte do peito que tinha uma pele emborrachada e quente. O álcool ainda na barriga remexendo as entranhas vazias de comida, aliás, havia lá dentro um pastelzinho de queijo do boteco. Mas os lábios que ainda guardavam um brilho do óleo de fritura estavam calados e iam junto com o resto do ser até o fim da rua, que era onde ficava sua casa. O portão o ferrolho o corpo o ferrolho o portão. A chave a porta o corpo a porta a chave. As notas agora eram pra Valsinha, pro Cotidiano, pra Construção. Pro mundo é um moinho. A geladeira o lembrou que fazia calor. A voz fraquejou, sentou no batente já sem camisa e com ela enxugava uma lágrima que arrastava outras junto consigo, grossas que nem chuva pesada. Bem que quis dizer ao amor que ele poderia ser, mas só quiseram enganá-lo com a tristeza. E o samba vinha em sua mente e ele o tocava com uma saudade que só.  A música já sem sentido de tão carregada, que se fosse pensar na letra seria preciso demorar longos minutos em cada verso, melhor não pensar. O samba renascia e se calava todo dia noite, ele mais um bêbado de bar a entreter a noite dos outros bêbados que depois da uma da manhã voltavam para suas casas e mulheres e crianças encardidas do sertão.  O cachimbo para trazer o sono, trazer a calma, renovar a fumaça dos pulmões, o cochilo sentado no batente de pedra que quando pequeno ele usava para posicionar os soldadinhos feitos com pernas de palito e corpo de manga pequenina que caiu do pé, que chorava ali sentado depois da surra do pai nas costas com o fogo da fivela do cinto ainda fumegando no corpinho mole, ali sentado na falta dos que se foram, dos que se forem, do samba das letras que já esqueceu. E era um bêbado que, trajando luto, me lembrou Carlitos. Mas uma dor assim pungente não há de ser inutilmente.