Um blog cheio de mimimi, com um título sem sentido e um template sem muita originalidade.





16 fevereiro, 2011

Mimos

     Não há motivo para que o dia acabe quando se tem um tobogã de 35m no quintal de casa. Mas mesmo sem motivo o dia acaba, e não há porquê não querer a noite quando se tem um home theater com a envergadura de um mini cinema. Dá vontade de não ter sono, mas o meu quarto com cortinas automáticas e travesseiro com pena de ganso só pensa em me seduzir. Dá vontade de nunca mais levantar da cama, a não ser para assaltar a geladeira de madrugada, sempre tão incrivelmente guarnecida de comidinhas suculentas feitas pela minha secretária, tão velhinha, às vezes ela me contava histórias de quando ensinou a dona Benta do Sítio do Picapau Amarelo a cozinhar. Mas mesmo sem motivo, um dia o dia acabou, e junto com ele foi embora a minha secretária. Não queria outra no lugar dela. Tive de aprender sozinho a preparar minha comida. Faltou disposição para brincar no tobogã. Faltava a antiga companhia para o home theater, faltava alguém para deixar meus lençóis cheirosinhos. Coloquei no bolso e no coração a minha melhor proposta, e corri atrás da minha secretariazinha. Ela morava lá longe, lá longe mesmo. A encontrei sentada no batentezinho de uma pequena casa de barro, comendo milho. Tirei do bolso e do coração, ela não quis. Dobrei, ela não quis. Respirei, respirei. Prometi-lhe que me casaria e teria filhos. Ela largou o milho e correu para os meus braços cheia de lágrimas.

11 fevereiro, 2011

Capítulo final - A prata da casa

Eu havia me esquecido de pensar sobre as coisas que já li. As coisas que dancei, as coisas que ouvi e as que dormi. Parei na costa do Sauípe por vinte minutinhos e ali já ficaram meus olhos querendo entrar no mar. Na beiradinha sentamos a Julie, a Monalisa, a Eduarda, a Verônica, a Teresa, a Valnice, a Elis. E conversamos uma tarde inteira até que chegasse a tardezinha e o céu azul com rosa bebê, com rosa mais forte, com esverdeado, lilás, e laranja. A Valnice  quis ficar mais um pouquinho a ver o céu estrelado, então levantamos e a deixamos lá, aproveitando o céu e a maresia. As outras corremos apressadas para não perder o jantar que já estava posto à mesa, comemos com ansiedade. Comentei sobre uma história que tinha lembrado exatamente naquele momento, mas as meninas não queriam me prestar atenção. Estavam agitadinhas todas para ir à festa. Não veio conosco a Monalisa, que preferia esperar a sobremesa ficar no ponto e ver um filminho na TV. Tuntz, tuntz, drink, LSD, drink, no ar, as luzes, banheiro, maquiagem, as luzes, balanço, barulho, pergunta ao ouvido, desconversa, mais movimento, cadeira, drink, e esse era o mundo todinho nascido só para a Elis. Insistimos ainda para que ela viesse  embora com a gente, sozinha lá poderia ser perigoso, mas bem que ela estava ansiosa para saber como seria ficar totalmente à vontade sem nós outras gastando sua liberdade. No outro dia: ressaca. A Teresa nos veio com café forte, cuscuz bom, já nos derrubando da cama para tirar a poeira, nos arrastar pro banheiro, varrer nosso quarto e lavar as roupas do outro dia. Foi tirando a sujeirinha, abrindo todas as gavetinhas, dizendo que é importante tomar leite. Eduarda não levantou da cama naquela manhã. Restávamos só eu e a Verônica  no quintal da casa, debaixo daquela mangueira maravilhosa. Nesse dia eu tinha dezessete anos, e lia um livro do García Márquez pela terceira vez. Mas para quê? Eu realmente precisava pensar sobre o que já tinha lido. Entretanto eu não me concentrava nas palavras, só conseguia observar com o canto do olho o que raios fazia a Verônica (nós a chamávamos de "a prata da casa") cavando um buraco no meio do quintal. Um buraco grande. Então antes que eu perguntasse qualquer coisa ela veio, arrancou o livro de mim e puxou-me pelos cabelos vigorosamente, me arrastando para aquele buraco. Não tinha comido o cuscuz com leite, estava fraquinha demais para reagir. A Teresa, se tivesse visto essa cena, teria me dado uma bronca daquelas.